Em um futuro não muito distante, Branco Sai, Preto Fica será reconhecido como um filme cult da história do cinema nacional, em boa parte devido a engenhosidade de seu diretor Adirley Queirós ao retratar um tema espinhoso como a violência policial. A criatividade que já fora mais latente no cinema nacional volta com tudo na produção de Ceilândia, cidade periférica da nossa Alphaville política – Brasília.

A obra de ficção documental conta com três personagens, entre eles Marquim do Tropa, um carismático radialista e DJ, condutor principal de um grande enigma – Por que esses jovens foram vítimas de atos de violência policial durante um baile black em 1986? O resultado desta brutalidade aparece na condição física, Marquim é Paraplégico e Sartana (Shokito) perdeu a perna no conflito.

Entre eles há outro personagem, Dimas Cravalanças, vindo do futuro para impedir o grande plano de Marquim, a construção de uma bomba cultural, com as melhores músicas de Ceilândia, um grande canteiro com obras inacabadas e carentes de reforma, cidade que serviu de abrigo às centenas de homens e mulheres que construíram Brasília e que ainda participam do seu desenvolvimento, mas que precisam de um passaporte para entrar na Alphaville.

O que parece uma grande confusão ganha força pelo roteiro que retrata boa parte da situação como uma ficção científica. Talvez, a melhor forma de chamar atenção para um evento tão absurdo, que marcou e ainda marca a vida de muitas vítimas de violência policial. Branco Sai, Preto Fica é um grito pesado contra cidadãos de um país onde, infelizmente, os índices de racismo ainda são elevados.

A parte técnica também é criativa para driblar a falta de recursos, em uma das cenas  o tripé é colocado sobre uma plataforma de metal e sofre com alguns movimentos que parecem da equipe de fotografia, já em outra a câmera é chacoalhada para dar efeito de movimento.Destaque para a trilha-sonora do filme que mescla músicas de baile com produções atuais, drenadas da própria Ceilândia. O ritmo é lento e parece de acordo com a visão um tanto melancólica do fatídico dia no Baile do 40. Quem viveu não esquece.

Nada tira atenção do principal, a ficção se misturou com a realidade de uma forma tão forte que a diferenciação é difícil. O sertão vai virar mar e o documentário vai virar ficção.

Assista ao trailer de Branco Sai, Preto Fica

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