A nova produção da sempre saudosa franquia Mad Max, de George Miller, chegou logo metendo o pé na porta no mercado dos blockbusters, bem aos moldes dos velhos tempos, e sem medo de se adaptar aos novos. O filme Mad Max Estrada da Fúria, quarto longa da série mais empoeirada do cinema, promete e cumpre.

Já em seu prólogo podemos sentir a força do que está por vir. Enquanto Max (Tom Hardy) apresenta a si mesmo e ao cenário onde estamos adentrando em uma narração em off, surge na tela um lagarto, que logo percebemos ter duas cabeças. Não demora para que este bizarro ser esteja se contorcendo entre os dentes do protagonista. Pronto, já não há mais regras, pouca coisa importa a partir de agora além de um delicioso mergulho na mente mais do que fértil de Miller e seus comparsas, Brendan McCarthy e Nick Lathouris, co-roteiristas do filme.

Diferente de grande parte das franquias de ação atuais, que se apoiam em personagens consolidados e com longa história em outras mídias, principalmente os quadrinhos, Mad Max Estrada da Fúria não deve muita explicação à ninguém e se aproveita do fato de estar fora de alcance de fãs xiitas para se recriar à vontade.

Assumindo-se como filme de ação, não perde tempo com meias palavras. Grande parte do filme e de seu desenvolvimento se dão em meio às cenas de perseguição e explosões. O divertido é que apesar de um certo exagero, ao menos em relação ao que se tem visto no gênero, há uma meticulosidade na construção narrativa imagética de cada cena que não nos deixa cansar – pelo contrário, queremos mais, e temos esse desejo atendido. Que sirva de exemplo para um ou outro diretor que ainda acredita que cortes rápidos e explosões são o suficiente para seus filmes não serem soníferos.

A narrativa de Mad Max Estrada da Fúria é relativamente simplista. Contar a história para alguém que ainda não o assistiu não deve provocar grande interesse. Porém, a construção dos personagens – principalmente os secundários – é sucinta, direta e forte. Há personagens com apenas duas ou três aparições curtas, mas o suficiente para deixarem sua marca. Não é preciso mais do que isso quando as coisas são bem pensadas e realizadas.

A meticulosidade da construção do filme se estende aos aspectos técnicos, também ousados. O azul e o laranja invadem a tela em contraposição às cores opacas do deserto, não há preocupação com qualquer traço de realidade nem mesmo aqui, estamos no universo de “Estrada da Fúria”, que nos adaptemos a ele. Enquanto isso, na questão sonora, temos uma trilha sonora afinadíssima que toma não só os alto-falantes, mas também a tela com diversos tambores e um guitarrista frenético que acompanha o grupo de vilões em suas investidas. Uma feliz brincadeira entre o diegético e o não-diegético (os sons que estão ou não dentro da cena).

Uma das escolhas mais interessantes do filme Mad Max Estrada da Fúria se dá na questão do protagonismo. O personagem Max é o protagonista inicial, obviamente, e assim nos é apresentado, porém aos poucos vamos conhecendo Imperator Furiosa, interpretada por Charlize Theron. Aos poucos vamos conhecendo as forças e motivações dela, ao mesmo tempo em que vamos entendendo as fraquezas do personagem Max e ao fim, depois de ambos os lados terem seu lado humano bem definido, um gesto de humildade acaba por transferir o bastão de protagonismo de forma conclusiva – o que inclusive veio a incomodar uma certa parcela de jovens admiradores de filmes de ação que têm dificuldade em lidar com mulheres fortes, gerando uma polêmica risível.

Em frente a um mercado sempre preocupado com cifras e com o freio sempre ao alcance da mão, George Miller traz um filme corajoso, com personalidade e feito com metade do orçamento médio de filmes do gênero. Que sirva de exemplo para tempos mais criativos e divertidos no futuro.

Assista ao Trailer do Filme Mad Max Estrada da Fúria

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