O cinema é um espaço de construção de parcerias, algumas delas são tão longínquas e intensas que culminam em amizades como a de Ettore Scola e Federico Fellini. A relação pode ser vista em Que Estranho Chamar-se Federico, do diretor de 84 anos, uma aula de cinematografia e uma das homenagens mais bonitas que o cinema já prestou a um de seus expoentes. De mestre para mestre Ettore Scola reconta caminhos que se cruzaram e que foram decisivos na história do cinema italiano.

Que Estranho Chamar-se Federico inicia sua jornada na redação do jornal satírico “Marc’Aurelio” ponto de amadurecimento da criatividade do desenhista Fellini e posteriormente do pupilo Scola. A relação de trabalho no jornal é importante para compreendermos o processo de criação de Fellini e outros artistas do período. A criatividade é coletiva, compartilhada e discutida entre todos da redação. A escolha do desenho que ilustrará a capa do jornal torna-se uma grande discussão entre todos os envolvidos e o jovem Fellini começa a ganhar merecido destaque, futuramente a habilidade na área será importante no detalhamento de seus personagens para setores como figurino e maquiagem.

O filme evolui em um bom ritmo que permite ao espectador acompanhar os acontecimentos sem que as passagens de tempo causem impacto negativo. Scola soube amarrar bem o roteiro, mesmo com uma história de vida tão rica e extensa. A parte técnica afinada  contribui para a construção narrativa que mistura passagens encenadas em preto-e-branco da juventude de Fellini e Scola, coloridas da última fase de Fellini e importantes imagens de arquivo. O condensamento deste vasto repertório é muito bem equilibrado e as escolhas estéticas de Scola são encantadoras, principalmente suas recriações em cor, nas quais esconde o rosto dos atores e força o público a imaginar sua imagem e a de Fellini.

Scola não produz um documentário ou filme biográfico, mas uma grande farsa felliniana em uma mescla do melhor do cinema de ambos autores. A sensibilidade do diretor é marcante ao apontar sutilmente sua admiração pela figura e pelo trabalho de Fellini. Enquanto certas estátuas podem significar o ápice em homenagens, Scola a materializa na sétima arte.  Eis o gran finale do diretor – Que Estranho Chamar-se Federico carrega diversas mensagens tem em sua essência algo mais valioso – a amizade entre dois grandes artistas.

Assista ao Trailer de Que Estranho Chamar-se Federico

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