O Ano Mais Violento retorna ao gênero de filmes de gângsters e mafiosos e consegue construir uma organicidade em si que faz lembrar clássicos como Era Uma Vez na América e Goodfellas, algo como o cinema que James Gray vem desenvolvendo. Esta organicidade provém de um cuidado bastante claro que o diretor teve em construir cada cena, de modo com que cada uma delas fosse independentemente forte, no que se diz respeito à narrativa ao mesmo tempo em que se relacionam entre si formando um ser maior e mais poderoso, que é o filme.

A direção de atores é um dos diversos detalhes que engrandecem o filme. Bastante rica, mostra o amor que o diretor tinha por cada personagem, conhecendo-os profundamente, e olhando seus gestos com um olhar poético, que aproveita o máximo de cada uma das ações.

O que faz com que O Ano Mais Violento não seja apenas uma reprodução de certas fórmulas, diferenciando-o de certos exercícios cinematográficos, é que ele coloca um personagem, Abel Morales (Oscar Isaac), no papel clássico de chefe de uma organização mafiosa, porém de uma forma deslocada. O personagem não pertence àquele ambiente, ao menos não mais, mas não consegue enxergar isso, se jogando em uma tormenta de ansiedade que cada vez mais o encaminha para uma certa morte – da qual o diretor acaba salvando-o, em um provável gesto de fraqueza que demonstra um ligeiro distanciamento do diretor com sua própria obra.

Esse gesto de proteção ao personagem, ainda que se apresente de forma sutil dentro do corpo maior que é o filme, é uma das diversas pequenas desafinações do filme com si mesmo.

Por exemplo, no início do filme, acompanhamos o protagonista em planos sempre fechados, e conforme ele vai se perdendo, os planos ficam mais abertos. Pode-se ter a leitura de que ele foi ficando cada vez mais sozinho, mais isolado do mundo, mas em contrapartida, os planos iniciais acabam por ser muito mais angustiantes enquanto os planos de seus momentos de angústia são mais carinhosos ao olhar do espectador, o que acaba provocando um certo paradoxo narrativo da imagem.

Esta leitura um pouco desajeitada da própria estória pelo diretor se estende também por outras áreas do filme. A força da personagem de Jessica Chastain, esposa de Abel, é claramente sub-aproveitada dentro do contexto que o filme estabelece – uma mulher forte, que sabe ler as situações com clareza a ponto de tomar as rédeas delas e ainda fazer com que o marido acredite estar sobre controle, uma pena que o desenvolvimento de seu arco acabe por a colocar de forma submissa para a conclusão de O Ano Mais Violento, outra demonstração de uma pequena falta de afinação do diretor com o que ele mesmo propõe.

O filme acaba por se colocar um pouco arrastado demais, provocado por pequenos excessos em determinadas subtramas menores, porém nada que apague sua grandiosidade em meio a um cenário artístico cada vez mais preguiçoso.

Assista ao Trailer de O Ano Mais Violento

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