Resenha do documentário O Sal da Terra e Entrevista com o diretor Juliano Salgado

Camila Pasin e Tiago Gaeta

Mais do que os bastidores do trabalho fotográfico ou a própria vida de Sebastião Salgado, O Sal da Terra é um documentário sobre experiências. Experiências pelas quais o fotógrafo, agora com 71 anos de idade, vivenciou e compartilhou com o mundo por meio da linguagem visual. Dirigido por Wim Wenders, renomado cineasta alemão, e Juliano Salgado, filho mais velho de Sebastião e Lélia Wanick Salgado, o filme é uma imersão nas raízes da humanidade e no ciclo da vida através do olhar do fotógrafo.

A estrutura narrativa de O Sal da Terra é construída através de diversos eixos que se entremeiam com muita profundidade. O olhar familiar de Juliano unido ao trabalho de Wim é o que permite que a composição se torne tão única e verdadeira. Um dos eixos narrativos arquitetado pelos diretores são os depoimentos de Sebastião Salgado sobre suas próprias obras e experiências, capturados em preto e branco, estética proposta por Wim. Em uma intrínseca reflexão, Sebastião mergulha nas lembranças de profundos registros de sua obra, e conta ao espectador suas percepções e sentimentos sobre elas. Sua voz ecoa entre os ouvidos dos espectadores e atinge seus pensamentos. O fundo é preto, e o olhar profundo. Seu rosto, em close, se mescla à monocromia das fotografias que observa.

Além disso, a narrativa de O Sal da Terra é estruturada por uma retratação histórica sobre os diferentes projetos realizados por Sebastião, sempre relacionados aos laços familiares, tanto com Lélia e sua família, com os filhos, e o pai do fotógrafo, que conta sobre o espírito aventureiro do filho, em depoimentos. Essas imagens, capturadas por Juliano muitas vezes anos antes da idealização do documentário, são coloridas e retratam o próprio contato de Sebastião com seus registros, a sua interação com as pessoas que fotografa e a intimidade criada entre eles.

Todavia, além de reavivar lembranças passadas, O Sal da Terra também se associa fortemente ao presente e ao futuro. Isso se engendra graças ao caráter notadamente contemporâneo das fotografias documentais reproduzidas, por meio da inevitável associação destas com nossa atual percepção sobre o mundo, o homem e a natureza.

A inspiração emanada pelo Instituto Terra para devolver à Mata Atlântica aquilo que lhe foi tirado em décadas de degradação ambiental é outro importante vislumbre de O Sal da Terra, direcionado não só ao presente mas também ao futuro. Depois de retratar tanto sofrimento humano e tanta destruição em “Êxodos”, Sebastião Salgado sentia-se doente física e psiquicamente. Foi então que sua esposa Lélia teve uma grande ideia: revitalizar as terras mineiras que sempre estiveram na mente de Sebastião, rememorando sua infância. Com a iniciativa do Instituto Terra, a fazenda localizada em Aimorés/MG, propriedade da família Salgado, já teve mais de quatro milhões de mudas produzidas e também está recuperando mais de sete mil hectares de áreas deterioradas na região, além do restabelecimento da fauna local.

Assim, O Sal da Terra propicia ao espectador um aprendizado de muito valor, através da percepção de Sebastião Salgado e dos diretores Juliano Salgado e Wim Wenders. É um aprendizado sobre o mundo que nos cerca, a importante experiência do contato humano e a valorização do bem mais precioso que temos: a vida em nosso planeta. É também um olhar aos primórdios da humanidade e, ao mesmo tempo, à conflituosa relação que nutrimos com ela atualmente, de desalento e esperança.

Neste ano, O Sal da Terra foi escolhido como o melhor documentário na premiação francesa César, e, em 2014, venceu o prêmio especial do júri da seção Un Certain Regard no Festival de Cannes. Além disso, O Sal da Terra concorreu a melhor documentário no Oscar 2015. O filme teve seu pré-lançamento na abertura da 4ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, pela qual são exibidas produções audiovisuais que envolvem temáticas sobre meio ambiente, divididas nos temas cidades, energia, biodiversidade, recursos naturais, consumo e povos/lugares. O Sal da Terra será lançado nos cinemas dia 26 de março e está previsto para ser exibido em 60 a 80 salas pelo Brasil, segundo Jean-Thomas Bernardi, da distribuidora Imovision.

Para saber mais sobre a produção do documentário O Sal da Terra, além do trabalho de Sebastião Salgado pelo olhar do filho, e interessantes reflexões acerca de produções fotográficas e audiovisuais, confira a entrevista exclusiva com Juliano Salgado para a Arrotos Culturais:

Por que o uso do francês como idioma de O Sal da Terra, mesmo nos depoimentos de Sebastião, e por que a escolha de mesclar imagens em preto e branco e colorido ao longo do filme?

É um documentário, e o documentário você faz um pouco na marra, como pode de acordo com as circunstâncias. E o francês é a língua que todo mundo tinha em comum, o Wim, o Sebastião e eu. Então foi por isso que a gente escolheu falar em francês. Tem alguns momentos que a gente fala em português, é outro compromisso, mas, na verdade, foi fruto de um compromisso do que era possível fazer dada as circunstâncias.

O preto e branco e a cor, no início o Wim queria fazer tudo em preto e branco, uma espécie de homenagem ao Sebastião, e eu queria fazer tudo em cor pra permitir que as fotos se ressaltassem com a distância. E, na verdade, a gente acabou no meio termo, o que foi bem legal. A gente usou o preto e branco e a cor, vários tons de cor pra poder delimitar as linhas narrativas. Você viu que o filme, na verdade, é bastante complexo, abre bastantes linhas narrativas, e tudo se resolve no fim de uma forma central com essa sequência no Instituto Terra. Mas a gente tinha que poder desenvolver essas linhas narrativas todas com todos esses lugares em momentos diferentes ao mesmo tempo, e isso foi uma das soluções.

Então quando você tinha os depoimentos do seu avô, por exemplo, você não sabia que iria fazer O Sal da Terra ainda…

Não, eu filmei isso em 1996. Imagina…

Uma das coisas que Sebastião fala, até mesmo em sua biografia “Da Minha Terra à Terra”, é a questão da fotografia como um recorte do real. Como você vê isso em O Sal da Terra?

Olha, as fotografias do Sebastião têm uma qualidade muito grande. Acho que a qualidade que ele consegue, do modo que ele viaja, é por criar uma relação íntima com as pessoas que ele vai fotografar. E ele tem essa capacidade muito forte de adaptação. E o que ele está fotografando, na verdade, é essa relação, a emoção que ele está sentindo que vem dessa intimidade, é essa intimidade que ele está fotografando. Isso faz com que a distância entre ele e as pessoas que ele está fotografando se reduz muito, ela fica muito pequena. E quando você vê a fotografia, você não está olhando pra um fato, uma ilustração de um fato. Você está observando uma relação humana, uma pessoa com sentimento, com vontade, desejo, medo e, ao mesmo tempo, traz o filtro dessa relação, o que está acontecendo no momento. É uma coisa muito emocional. Então você acaba vendo uma pessoa, você não está vendo um fato. E isso é muito forte porque quebra a distância entre o espectador – a audiência – e o evento. Você não está ilustrando o evento, mas criando uma conexão entre pessoas. Eu acho que é o que faz com que as fotografias de Sebastião sejam tão fortes, e também o que traz as críticas. Então você não consegue se proteger tão bem de uma fotografia que é feita desse jeito. E pra algumas pessoas isso é insuportável, então rola crítica. ‘É muito bonito’, ‘é muito forte’, ‘a estética da miséria’, bla bla bla… Mas, na verdade, são fotografias poderosas que fazem a coisa certa, quebram distância.

Você tem dois tipos de responsabilidade quando você está fazendo fotografias ou filmes: uma é a responsabilidade com a audiência, de trazer uma informação justa, honesta, refletida, verificada; e a outra é a responsabilidade com a pessoa que você está fotografando, justamente porque você está passando uma imagem dela que corresponde ao que ela é, ao que ela pensa e ao que você está vendo dela e entendendo da relação.

Sim, a fotografia pode ser uma forma até de denunciar essas realidades que, muitas vezes, as pessoas não vêem, e talvez através da estética dê pra chamar atenção a isso.

Sim. Não é estética por estética, é uma relação, algo muito emocional. Qualquer fotógrafo, quando vai num lugar, pode se perguntar se tem direito ou não de fazer essas fotografias. Eu acho que as fotografias devem ser feitas porque elas informam, elas podem denunciar. A discussão de fazer uma fotografia bonita não existe, você não vai em um lugar pra fazer uma fotografia feia, pra estragar a imagem da pessoa que você vai fotografar, você vai tentar dar dignidade, muitas vezes, pras pessoas que estão sofrendo muito em situações degradantes, que estão perdendo a dignidade. E você meio que está fazendo o papel de estar trazendo a imagem dessas pessoas pra fora, a história delas pra fora, de um jeito que permite que elas existam de um modo cheio. É a responsabilidade que você tem em relação à pessoa que está sendo fotografada.

Você tem dois tipos de responsabilidade quando você está fazendo fotografias ou filmes: uma é a responsabilidade com a audiência, de trazer uma informação justa, honesta, refletida, verificada; e a outra é a responsabilidade com a pessoa que você está fotografando, justamente porque você está passando uma imagem dela que corresponde ao que ela é, ao que ela pensa e ao que você está vendo dela e entendendo da relação. É um mix complicado, é bastante complexo. Eu acho que Sebastião faz isso muito bem, e isso não é comum. Quando você vê uma imagem no jornal, você já consegue identificar os códigos dessa imagem, você já consegue ter uma distância dessas imagens. Você vê um fato, uma coisa abstrata, são números, são informações, não são pessoas. E as fotografias do Sebastião, por ele ter essa responsabilidade com as pessoas que ele fotografa, trazem muito mais.

E até mesmo quanto ao documentário, há uma diferenciação quanto à recepção dele e a fotografia. Ao mesmo tempo em que o documentário pode trazer informações explícitas, a fotografia capta uma fração de segundo que qualquer pessoa pode interpretar, independente da língua, estimulando até mesmo a imaginação do espectador. Como você vê essa diferença, entre o filme e a fotografia no momento de recepção?

São, na verdade, duas imagens que se lêem de uma maneira muito diferente. Essa diferença não está tanto na recepção como na realização das imagens. Na imagem em movimento, você tem que construir sua história passo a passo, dando uma informação atrás da outra pra permitir que se construa a ideia. Na fotografia já é diferente. Você tem que conseguir colocar os elementos todos dentro de uma imagem só pra construir uma oposição ou pelo menos uma coisa mais complexa do que está acontecendo no momento, construir a ideia do que está acontecendo. Eu acho que tem movimento nos dois tipos de imagem. O da imagem em movimento é óbvio, né, pelo nome. E o movimento da fotografia acontece assim: a pessoa que olha para a fotografia, primeiramente vê o centro focal dessa fotografia pra pegar a informação principal, e depois vai começar a descobrir as informações secundárias, que não estão no centro focal. Com isso, quando ela volta para o centro focal ela descobre um sentido novo para aquilo que está no centro, e por aí vai… E as fotografias do Sebastião, por acaso, são bastante complexas, elas trazem muitas informações secundárias que vão transformando o sentido da fotografia. O Sal da Terra tem esse nível que vem a se adicionar que é o nível da experiência humana que ele teve, o que também vem dando informações emocionais, que vão transformando o sentido da fotografia. Então a fotografia, na verdade, está em movimento. Só que o movimento acontece aqui (dentro de nós), ele não está na sua frente. Então é muito diferente sim, existem peculiaridades imensas. E não acho que é no sentido que se está dando na fotografia, mas na maneira de se realizar ela, na técnica. E por isso é muito difícil de se passar de um para o outro.

Para finalizar nossa conversa, gostaríamos de saber o que você aprendeu na realização desse documentário sobre o seu pai.

Duas coisas: eu e Tião nos aproximamos muito, viramos amigos fazendo o documentário. A gente tinha uma relação muito conflituosa como acontece, né… E eu aprendi também do Wim muita coisa. Na verdade, do Tião a mesma coisa, mas do Tião eu já sabia isso. É que um projeto artístico, informativo, como é um filme, por exemplo, um documentário ele só está pronto quando ele está pronto. A gente tinha o orçamento pra editar durante quatro meses, e a gente acabou editando durante um ano e meio, porque a gente não tinha encontrado o filme ainda. A gente teve que ir até o fim dessa história, e isso é uma lição muito forte. O grau de investimento é muito muito grande. E você tem que aceitar isso, senão não vai rolar. O Sal da Terra.

Assista ao Trailer de O Sal da Terra

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