Assisti o filme Birdman ontem, depois de um tempo um pouco afastado do cinema. Li pouco sobre o filme, bem pouco, então quando me deparo com um imenso plano sequência e toda a esquizofrenia presente nele tomo um susto e me reposiciono na cadeira. O que vem por aí?

A princípio aquelas imagens não me passavam muito mais do que um incômodo, não eram imagens ruins, é verdade, mas por que estavam ali, e por que me incomodavam?

Fazer filmes com grandes planos sequência já deixou de ser novidade faz um tempo. Mas nem por isso deixam de ser interessantes. Não me importo, por exemplo, com o fato de que o plano tenha sido feito com diversos truques e não apenas em uma sequência como se apresenta. Hitchcock usou de truques com a mesma finalidade em Festim Diabólico e não por isso o filme ficou menor.

A grande questão dos planos sequência, ao menos os que mais me chamaram a atenção, é a sensibilidade que me passam, a sutileza com que a câmera se movimenta, com a timidez de quem não quer ser notada.

No filme Birdman não há sutileza, é uma câmera sem nenhuma vergonha na cara, uma exibicionista que deixa claro desde o princípio que está lá e que pode fazer piruetas. Pode-se ter uma leitura de que a intenção por trás desta câmera nervosa, com closes claustrofóbicos, era a de passar a angustia e estresse de toda a correria que se passa nos bastidores da Broadway, de forma alguma seria uma leitura errada, mas não foi o que o filme me passou. Para um filme que coloca em debate a questão da verdade de um artista e de uma obra, se revelar assim tão bruscamente, destrambelhadamente, me soa quase amador.

Certa vez me disseram, sobre um filme cheio de firulas, “Você queria o que? Que ele fizesse planos menos bonitos”? Basicamente, sim. A questão é: é interessante, claro, que o diretor saiba filmar planos bonitos, sobre isso não há dúvidas, mas todos os planos devem ser bonitos? Eu diria que não. O plano existe para o filme e não por si só, atua como célula vivaz de um ser maior e, portanto, deve se ater a sua função, não mais do que isso.

Por isso quando o diretor tenta fazer com que seus planos sejam mais do que realmente devem ser, todo o excesso mostrado não passa de seu ego exposto a reveria, não adiciona de nada ao filme além disso. Estamos acostumados com discursos de progresso, queremos sempre crescer e ser mais e melhores, mas na verdade é o equilíbrio que importa, é a partir dele que se cria o belo.

Posto tudo isso, digo que apesar de todos os pesares, pelo contexto onde o diretor se insere, admiro que ele tenha conseguido expor seu ego a tal ponto. Iñarritu se arriscou no filme Birdman, assim como seu protagonista, colocou uma quantidade considerável de fichas em jogo e aí está, como forte concorrente ao Oscar. E além de tudo, ressuscitou um antigo debate sobre planos sequência, e debates são sempre bem-vindos.

No mais, é difícil não comentar sobre a trilha sonora, esta sim um elemento muitíssimo bem utilizado no filme Birdman e as atuações, que me chamaram a atenção de maneira geral, quase todos muito bons. É possível desembaçar um pouco o vidro e por trás conseguir ver um filme bastante interessante, com roteiro muito bem construído, de personagens fortes e ótimos diálogos, ou até mesmo encontrar sentido em todos aqueles excessos, fica a mercê da subjetividade de cada um.

Assista ao Trailer do Filme Birdman

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