Depois de “Canções do Segundo Andar” e “Vocês, os vivos”, Roy Andersson volta a sua estética caricata e melancólica para finalizar sua trilogia sobre o ser humano. Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência segue bastante similar aos seus antecessores, composto por diversas esquetes que colocam a humanidade em uma vitrine, recheadas de sarcasmo e humor negro, fazendo-nos refletir sobre nossa existência, assim como o pombo do título.

O longa abre com uma cena metalinguística em relação ao próprio filme, onde um homem observa um pombo empalhado no museu, com certa curiosidade. Todas as esquetes que dão seguimento a este início se apresentam com o enquadramento fixo, profundidade de campo que permite que vejamos todos os detalhes em cena – muitas vezes há ações no segundo plano -, interpretadas por seres humanos pálidos, com aspecto fúnebre, com uma paleta de cores desgastadas. Pode-se interpretar que o pombo do título é quem nos observa durante o filme, e o diretor faz crer que ele não está tendo a melhor das impressões sobre o modo em que convivemos em sociedade nos dias atuais.

“Estou feliz em saber que você está bem”, dizem quase todos os personagens quando estão ao telefone com outra pessoa. A frase, no entanto, não é proferida como quem realmente acredita no que está dizendo. Assim como os vendedores de entretenimento, que vendem objetos para fazerem as pessoas mais felizes não parecem comprar a própria ideia do texto que repetem roboticamente a cada cliente. Roy Andersson propõe ao mesmo tempo um riso pelo bizarro e uma reflexão sobre a artificialidade das verdades do homem atual, perdido em simulacros e caminhando para uma apatia cada vez maior.

Em um último capítulo do filme, intitulado ironicamente como “Homo Sapiens”, o diretor põe à prova a máxima de que somos os seres mais evoluídos da terra, e também é quando coloca seus personagens em momentos de reflexão. “Ninguém pediu perdão”, diz uma personagem após uma cena bastante forte de exploração de humanos por humanos, “É certo usar as pessoas apenas para seu próprio prazer?”, indaga outro, que fica sem resposta, afinal ele não deveria estar importunando as pessoas naquele horário com questões filosóficas, elas precisam acordar cedo para trabalhar no dia seguinte.

Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência fecha a trilogia com a mesma acidez com que começou, um convite a rirmos de nós mesmos.

Assista ao trailer de Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência

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