Jauja, quinto longa metragem do diretor Lisandro Alonso apresenta algumas surpresas em relação à filmografia anterior. Pode-se dizer que há uma maior preocupação com um ritmo de filme e a construção de uma narrativa, elementos que pareciam ser sempre coadjuvantes nos outros filmes. É também a primeira vez que o diretor trabalha com atores profissionais e que divide a autoria do roteiro com alguém. Todos estes elementos, e outros mais, fazem com que este seja seu filme mais digerível. Mas não se enganem, ainda há muito das características consolidadas do estilo do diretor argentino em Jauja, câmeras quase sempre paradas, planos longos e contemplativos, poucos diálogos (embora muito mais do que em seus filmes anteriores).

O filme se apresenta explicando o significado da palavra Jauja, que seria uma região lendária repleta de felicidade, que muitos procuram mas que não há registro de alguém que tenha lá chegado, diz a lenda que todos que tentaram desapareceram no caminho. Logo após este letreito temos o primeiro plano do filme, pai e filha sentados, ela de frente, ele de costas em uma bonita composição de quadro, um 4:3 com bordas arredondadas, que faz lembrar uma fotografia antiga. Eles conversam sobre a possibilidade de ela ganhar um cachorro. Gunnar, o pai e engenheiro dinamarquês que está no deserto argentino para ajudar o exército em uma missão, é interpretado por Viggo Mortensen, que também produz o filme, e a filha, Ingeborg, é interpretada pela jovem Viilbjørk Malling Agger.

Jauja segue com diversos destes planos bem compostos, sem pressa alguma, onde se apresentam outros personagens pontuais da narrativa. Um deles, um soldado argentino, é apresentado em um interessante jogo de plano e contra-plano com Gunnar, com cada um deles se situando há uma boa distância um do outro, seguido de um diálogo onde o soldado insinua pedir a filha de Gunnar em casamento.

Apesar de haver sim um jogo narrativo muito maior em Jauja em comparação aos outros filmes do diretor, boa parte deste jogo é trabalhada no sub-texto de grandes planos que podem soar vazios para espectadores que não embarcarem na viagem proposta por Alonso.

Jauja porém é um pouco, bem pouco, mais convidativo ao espectador, misturando o naturalismo usual de seus filmes anteriores a uma sutil teatralidade, com jogos de cena entre os corpos em campo, ou fora dele, com o uso de cores vibrantes e saturadas e uma iluminação artificial, há inclusive duas inclusões de trilha sonora, curiosamente compostas pelo próprio Viggo Mortensen, e tão incomuns no cinema de Alonso. Tudo isso contribui para o clima fabular para o qual o filme se encaminha quando a filha de Gunnar decide fugir com um jovem soldado, fazendo com que ele parta em busca dela, em uma jornada pelo vazio do deserto.

Perto do final temos uma primeira grande virada, em um jogo onde o diretor nos faz crer que haverá uma evolução na narrativa, porém o que acontece é quase que uma curva nela, quando nos é apresentada uma personagem bastante curiosa. Depois disto há ainda outra grande virada no roteiro, da qual não convém dar grandes pistas aqui, mas que pode ou não dar dicas dos porquês de sua existência. Há algo de lynchniano nestas viradas, um passeio entre as realidades de possíveis sonhos.

Jauja nos deixa a impressão de que os primeiros filmes do diretor eram uma espécie de ensaios estéticos-narrativos (ou até mesmo anti-narrativos), que o conduziram para o cinema que ele aqui nos apresenta. Apesar de ainda não agradar a todos os gostos, apresenta-se menos difícil, e nos convida a um passeio místico composto por lindos planos que exigem mais cuidado de nossos olhares com cada detalhe em cena.

Assista ao trailer de Jauja

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