Pode-se dizer que Paulo Henrique Fontenelle é um cineasta corajoso. Iniciou sua carreira com um documentário curto sobre o pior jogador de futebol do mundo, posteriormente ganhou os holofotes com “Loki”, sobre Arnaldo Baptista, um dos maiores gênios da música brasileira e mundial, que já não ganhava a atenção merecida há tempos. E há poucos anos, filmou “Dossiê Jango”, onde traz de volta a tona um assunto que havia sido deixado por debaixo do tapete. Quando o diretor decide filmar “Cássia”, assume uma enorme responsabilidade, a de ser justo com a história fantástica de uma cantora querida por uma imensidão de pessoas como Cássia Eller.

O documentário segue uma linha narrativa já clássica, mesclando depoimentos e imagens de arquivo, porém é sábio em fazer escolhas de privilegiar imagens de arquivo, mesmo quando depoimentos são dados em off, e gentilmente concede ao espectador a chance de passar mais tempo com esta personagem tão forte que foi Cássia Eller.

O documentário não é nem um pouco preguiçoso. Feito durante quatro anos, investiga à fundo imagens de arquivos e dezenas de pessoas que conviveram com ela, contando sua história de forma cronológica mas sabendo dar o peso necessário para cada um dos momentos.

É difícil não se surpreender com diversas histórias, como quando a cantora forjava pequenos shows em clubes modestos, sem anunciar quem era, para poder voltar a sentir a sensação de ter um contato mais próximo com o público. Mas o maior prazer de se assistir a esse documentário é poder conhecer melhor essa pessoa tão intrigante, excessivamente tímida fora dos palcos, e um monstro avassalador dentro dele. Fato que o diretor deixa claro que quer valorizar, colocando tanto no início quanto no fim um trecho de uma carta de Cássia Eller onde diz algo como “Você pode até achar que me conhece, por me ver por aí, ser meu amigo, até ter transado comigo. Mas você se surpreenderá quando me ouvir cantar.”

E é mesmo bastante impressionante ver o contraste entre as imagens de entrevistas, sempre tímidas, sem jeito, e sua facilidade para se expressar com todas as suas forças no palco. A própria Cássia Eller explica que desde sempre lutou com essa timidez, não conseguia conviver com as pessoas socialmente, mas encontrou na música sua maior forma de expressão, “e que forma mais bonita eu encontrei para colocar estas coisas para fora”. Um produtor que dá depoimento ao filme faz questão de frisar que apesar de Cássia Eller não ter grandes composições que marcaram sua carreira, cada interpretação sua de uma música já escrita por outra pessoa era uma nova composição, por toda vida que a cantora dava às músicas.

O documentário ainda encontra espaço para fazer críticas à imprensa nacional, bastante injusta com Cássia no momento de sua morte, com diversas manchetes que sugeriam, ou até mesmo afirmavam com toda a certeza, de que a morte havia sido provocada pelo uso de drogas, quando na verdade foi por um infarto no miocárdio, e os exames não detectaram qualquer tipo de droga, nem mesmo álcool no sangue da cantora no momento de sua morte.

Em um segundo momento a imprensa entra no jogo sensacionalista do embate judicial que se deu para a guarda de Chicão, filho de Cássia, entre Maria Eugênia, companheira de vida inteira de Cássia Eller, e o Pai de Cássia, que mal conhecia o neto até então. Um momento bastante importante para o movimento LGBT do país, posto que pela primeira vez um caso destes deu a guarda para uma pessoa homossexual.

Por fim terminamos com um tímido depoimento do filho de Cássia Eller, que é guardado para o final do filme, onde pouco se é dito, mas a forma com que se é dito nos deixa bastante claro que as semelhanças com a mãe não são apenas físicas.

Sem dúvidas um documentário delicioso de ser assistido e que vai nos fazer sentir saudades da cantora que conhecíamos, e também da Cássia que passamos a conhecer com o filme. E como o próprio diretor disse, em debate após a sessão, a música tem essa força, de nos fazer lembrar dos momentos em que a ouvimos pela primeira vez, ou quando a vimos naquele show do Rock In Rio, e fazer com que o espectador de certa forma participe junto do documentário, cada um com sua memória.

Assista ao trailer do documentário sobre a vida de Cássia Eller

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