No início de Sono de Inverno há um plano de zoom que vagarosamente se aproxima das costas da cabeça de Aydin, o protagonista do filme, o plano se fecha como se estivéssemos nela adentrando. E é nela que o diretor nos convida a passar as próximas horas.

Sono de Inverno é o novo filme de Nuri Bilge Ceylan, o diretor turco que ganhou os olhares do mundo cinéfilo, tendo quase toda sua filmografia premiada no Festival de Cannes. Desta vez Ceylan se distancia um pouco de seu cinema mais contemplativo, e nos apresenta uma obra repleta de diálogos longos e densos, com a qual conseguiu finalmente levar o prêmio máximo do festival francês.

O protagonista Aydin é um ex-ator de teatro, que herdou de seu pai o controle de boa parte da pequena cidade onde mora, além de administrar um hotel. Já aí é possível ver algumas similaridades com a peça Rei Lear de Shakespeare, autor que será citado em outros momentos do filme, ora de forma direta, ora de outras maneiras, como por exemplo o nome do hotel administrado por Aydin, Othelo.

Outra diferença pontual de Sono de Inverno para seu anterior, Era Uma Vez em Anatólia, é a diminuição de grandes planos abertos, que ainda aparecem e nos mostram a beleza das montanhas da região da Anatólia, também cenário deste filme, porém que na maior parte do tempo dá lugar a planos mais fechados e intimistas, grande parte deles em ambientes fechados, onde boa parte dos diálogos acontece.

Junto com Aydin, vivem sua jovem esposa Nihal, que vive à sombra do marido mas tenta com todas as forças se livrar desta posição e conseguir alguma independência na vida, e Necla, sua irmã, que acaba de se divorciar do marido. Com eles Aydin irá ter seus diálogos mais profundos, nos quais poderemos conhecer com maior transparência a complexa cabeça dele, um homem que vê defeito em tudo e todos ao redor, e que se utiliza de seu poder exalando cinismo em seu tom de voz, além de abusar dos preconceitos do patriarcado para diminuir as mulheres de sua vida.

Ele escreve uma coluna para o jornal local, e vive dizendo sobre o importante livro que vai escrever sobre o teatro turco, de forma a se colocar como um intelectual local, mais uma maneira de tentar impor alguma forma de superioridade aos outros.

Ceylan não faz questão nenhuma de fazer um filme fácil, os diálogos que chegam a durar cerca de meia hora por algumas vezes, são bastante densos e verborrágicos, além de serem recheados com cinismo e de ter tensões emocionais como subtexto.

Apesar disso, Sono de Inverno consegue prender a atenção do espectador, o que é algo admirável para um filme de 196 minutos e que não se esforça para ser fácil. E depois de passarmos tanto tempo junto ao protagonista, conseguimos enxergar cada vez mais através da carcaça de bom moço que ele tenta construir ao gastar grandes quantias em caridade, quando na verdade só o que ele faz é tentar pagar o preço para se livrar da culpa. Aydin é algo como um “Poderoso Chefão” da Anatólia, e já não sabe ser outra coisa, por isso finge-se de desentendido e segue vivendo uma vida que no fundo sabe que é miserável, pisando nos outros sempre que pode, apenas pelo gosto de se sentir superior.

Assista ao trailer de Sono de Inverno

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