Acima das Nuvens se divide em três partes. Na primeira, Assayas nos apresenta Maria (Juliette Binoche), uma famosa atriz adentrando na meia-idade, recém saída de um divórcio, e perdida e inseguranças que tenta esconder a todo custo. Valentine (Kristen Stewart), é sua assessora, com quem Maria mantém uma relação próxima de amizade e confidências.

Maria é chamada para reinterpretar uma peça que havia feito há 20 anos, onde uma mulher mais velha se relaciona com uma garota muito mais nova. Mas desta vez, Maria não fará o papel da garota confiante e desestabilizante, e sim o da mulher, perdida nas inseguranças de sua idade.

A partir desta premissa, Assayas trabalhará um belo jogo de metalinguagem, que incorporará as personagens do filme, as personagens do teatro, e porque não, as próprias atrizes do filme, que claramente foram escolhidas a dedo para seus papéis. Este jogo mostrará a riqueza do roteiro de Acima das Nuvens, que não apenas se desenvolve com uma maestria construída por sutilezas, como conta com um ótimo texto, que confere personalidade ao filme e às personagens.

Além de todo jogo metalinguístico, ou melhor, dentro dele, há um forte diálogo sobre a passagem de tempo, e com ele, uma reflexão sobre a maneira de se ver cinema em diferentes épocas. O diretor mostra uma facilidade para compreender uma personagem como Maria, deslocada de seu tempo, no sentido de não conhecer o que se passa no mundo do show business, assim como de desvendar o próprio show business e até brincar com isso.

Para estabelecer todos estes jogos no roteiro, Acima das Nuvens conta com uma atuação exuberante de Juliette Binoche, que ainda consegue nos surpreender quando é desafiada, e encarna na tela uma personagem que pode ao mesmo tempo se dividir em várias, assim como no fundo por ser ela mesma, Juliette em toda sua complexidade. Kristen Stewart não deixa nada a desejar – conseguir manter sua presença forte em tela mesmo ao lado de uma atuação avassaladora de Binoche não é para qualquer uma.

À riqueza de Acima das Nuvens ainda se soma uma mise-en-scene fortíssima, que só prova mais uma vez a qualidade de Assayas, que nos entrega uma poesia visual com diversos momentos não apenas bonitos esteticamente, mas que também mostram toda a força do cinema, que pode nos tirar algo, de repente, sem que saibamos se este algo sumiu, morreu, ou fugiu. Mas nos deixa essa dúvida, que nos consome e nos preenche, como as nuvens que preenchem os desfiladeiros de Sils Maria em uma dança que faz lembrar o rastejar de uma cobra.

Assista ao trailer de Acima das Nuvens

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