Antes de mais nada, apenas o fato da existência de A Dança da Realidade já é por si só festivo. É a volta às telas, depois de mais de vinte anos, de um dos cineastas mais peculiares de todos os tempos. O cinema de Jodorowsky tem um quê de pureza e inocência, pertante a própria arte de se filmar. Quando vemos seus filmes, fica bastante claro que o diretor não se curva nem um mílimetro às regras usuais que compõem a cartilha da linguagem cinematográfica. Muito em seus filmes pode soar pobre em aspectos técnicos, mas dificilmente ao fim das sessões isso vai fazer alguma diferença, pois indepente dos métodos e limitações técnicas de Jodorowsky, há nele uma liberdade de criação rara, e que é utilizada de forma sublime, compondo mise-en-scene’s exuberantes e histórias repletas de simbolismos e misticismos, de forma com que seja quase impossível um espectador passar ileso a uma experiência como essa.

O próprio diretor define A Dança da Realidade como uma “autobiografia imaginada”. Tendo como plano de fundo o Chile dos anos 30, somos apresentados a Alejandrito, filho de Jaime, um stalinista ferrenho e bastante duro com sua família – interpretado por Brontis Jodorowsky, filho do diretor, o mesmo que fez o garotinho de “El Topo” – , e Sara, uma mulher de seios volumosos e que só se comunica cantando como se estivesse em uma ópera. Jodorowsky chama a realidade de suas memórias para dançar e transforma-as em poesia ao seu modo e divide com o espectador parte importante de sua formação em uma versão onírica, colorida e cheia de singularidades.

É interessante notar o CGI, utilizado pela primeira vez em um filme do diretor, e assim como todo o resto pode soar igualmente tosco, muito provavelmente devido a limitações orçamentárias, mas que não por isso deixa de nos presentear com cenas impressionantes, como a onda gigante no mar, depois de receber “uma única pedra que poderia matar todos os peixes”, seguida de centenas de pelicanos que se aproveitam de uma oportuna fartura de sardinhas. Tudo isso aos olhos do garoto, que entra em um conflito existencial com a cena, acompanhado por uma excêntrica Rainha de Paus e de seu eu-futuro, o próprio diretor, que se faz narrador presente e também um tutor de si mesmo, mesmo ele próprio atestando que enquanto um existir (seu eu criança ou seu eu velho), o outro não poderá existir ao mesmo tempo, a não ser na “arte sagrada” que é o cinema, definido pelo próprio Jodorowsky. Não há dúvidas que estas imagens de A Dança da Realidade permanecerão nas memórias dos espectadores por muito mais tempo do que as do último lançamento do verão.

Assim como em seus outros filmes, o diretor não poupa críticas a diversos setores da sociedade como a religião, a política, o exército. Na segunda metade de A Dança da Realidade, onde o pai se torna mais protagonista que o filho, o diretor utiliza-se da cegueira política e militar de Jaime e o faz passar por uma jornada de purificação, elemento também presente em outros filmes do diretor, para que este encontre a verdade, de que Stalin, aquele que ele idolatra, não é tão diferente de Ibãnez, aquele que ele deseja matar. É claro, tudo isso feito em um misto de cenas verossímeis (embora não reais, já que o próprio diretor afirmou que este episódio específico não aconteceu de fato na vida de seu pai) e alegorias que muitas vezes servem de metáforas para diversos outros elementos da vida.

Por toda essa riqueza tanto visual quanto de simbolismos, somada a este modo singular de se fazer cinema, de acordo com as próprias regras, A Dança da Realidade mostra que o diretor não perdeu nada em qualidade frente a suas obras clássicas, e nos deixa a esperança de que um novo hiato como esse não aconteça novamente, para que possamos adentrar em mais poesias visuais de Jodorowsky.

E para finalizar, um vídeo do diretor “apresentado” A Dança da Realidade para o Festival de Montreal do ano passado:

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