Eis um filme interessante. Blind nos conta a história de uma escritora, Ingrid, que ficou cega recentemente. Ela ainda está se adaptando à nova realidade, não tem vontade de sair, fica apenas em seu canto, próxima à janela, acompanhada de seu laptop e uma xícara de chá. O diretor, Eskil Vogt, que já havia roteirizado os longas de Joachim Trier, “Oslo, 31 de Agosto” e “Começar de Novo”, faz sua estreia na direção de longas, e demonstra bastante sensibilidade na transposição das palavras de seu roteiro em imagens. Uma tarefa ainda mais peculiar quando se trata de uma história sobre uma pessoa cega.

O roteiro é o principal responsável pelo bom andamento de Blind, tendo a direção discreta e uma boa montagem como apoios para sua fluidez. Por ser Ingrid uma escritora, que cria personagens que nos são apresentados em tela, e o diretor, também criador destes personagens, assim como da própria Ingrid, cria-se um jogo interessante de metalinguagem, que é introduzida paulatinamente no desenvolver do longa.

Os primeiros personagens criados por Ingrid que nos são apresentados são Elin, uma mulher recém divorciada, e Einar, um homem solitário, viciado em pornografia virtual. A solidão logo se mostra uma característica comum aos três, o que diz muito sobre a escritora. E o modo com que estes momentos vazios nos são apresentados, seja por um plano um pouco mais estendido, por um suspiro, ou pela imaginação dos personagens, é bastante sensível e ajuda a convidar o espectador a sentir empatia por eles.

“O que é real não é importante, contanto que eu consiga visualizá-lo”, diz a protagonista no início de Blind. O diretor utiliza-se deste pensamento para criar uma espécie de licença poética para nos contar as histórias que são escritas por ela misturando a ficção, com um segundo plano de ficção. Muitas vezes a maneira com que o diretor brinca com o roteiro se dá de forma tão sutil que podem passar despercebidas pelo espectador ou então gerar uma pequena confusão inicial.

O desenvolvimento de Blind é bastante suave em seu início e vai aumentando seu ritmo gradativamente até um final cheio de gás, quando a protagonista começa a se confundir cada vez mais com a personagem que simboliza seu alter-ego, fazendo com que a metalinguagem atinja níveis ainda maiores e mais interessantes, um ótimo jogo de roteiro por Eskil Vogt, que abre mão das regras clássicas usualmente utilizadas no cinema narrativo.

É o cuidado com estes pequenos detalhes que dá força a Blind. Uma sensibilidade capaz de criar cenas lindas, como a que uma mulher cega troca mensagens de SMS em um ônibus, onde todos ao redor podem ouvir a leitura eletrônica do celular e, de certa maneira, dividir com ela aquelas emoções, sem com que ela note. Ou então quando Ingrid despe-se e se põe contra o vidro da janela, em um momento bastante intenso, de querer ser vista, mesmo sem poder ver por quem.

Uma bela estreia na direção de Vogt, mostrando que pode ir além de ser um bom roteirista, e que nos convida a ficarmos de olho no que ainda está por vir em sua carreira.

Assista ao trailer de Blind

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