A História do Homem Henry Sobel + Entrevista

Para as gerações mais novas, a figura de Henry Sobel talvez não tenha a importância que merece. Durante o regime militar, o rabino foi uma das figuras mais importantes para a luta contra a opressão. Seu método de luta foi diferente: quando o jornalista Vladimir Herzog foi encontrado morto na prisão, em 1975, Sobel se recusou a enterrá-lo como um judeu suicida, contestando a versão oficial do Exército a respeito da morte do jornalista. Já no período da democratização, o rabino realizou ações importantes para resgatar a autoestima judaica no país e para dialogar com outras crenças, em prol de uma paz em comum.

É com o objetivo de resgatar a importância de Sobel que André Bushatsky realizou o documentário A História do Homem Henry Sobel”. Além de entrevistar o próprio rabino, o diretor conversou com o jornalista Audálio Dantas (autor do livro “As duas guerras de Vlado”), o jornalista Heródoto Barbeiro, o apresentador Luciano Hulk e outras personalidades próximas à trajetória do rabino. Os depoimentos compõem a narrativa, com o auxílio de vídeos e imagens dos principais episódios da vida de Sobel, que perante às câmeras é um personagem orgulhoso da sua trajetória, mas fragilizado pela saúde e ainda preocupado com o resgate de sua história não apenas como personalidade religiosa, mas como ser humano.

Um exemplo é quando conta a respeito da sua entrevista para a revista Playboy, no começo da década de 90 e que causou polêmica entre a comunidade judaica: ” Não me arrependo, pois eu me senti mais gente ao conceder a entrevista”, ele diz. O resgate à humanização de Sobel fica como o maior triunfo do documentário, que por vezes peca pela forma como secundariza as relações pessoais do rabino (é necessário ficar até o final dos créditos para se encantar mais com o personagem apresentado e conhecer de fato sua família), mas as declarações dos entrevistados constroem uma linearidade independente do olhar do diretor e necessária para valorizar a memória coletiva como História social e inerente à manutenção da democracia.

Segue a entrevista que realizamos com Bushatsky, diretor de A História do Homem Henry Sobel:

1 –  Como surgiu a ideia de contar a história de Sobel? Tudo começou em um almoço de família. Falávamos sobre o livro que, na época, o rabino tinha acabado de lançar, quando surgiu a ideia do filme. Meu tio Nelson logo se encarregou de fazer o contato inicial com Sobel e, dias depois, marcamos um encontro com o rabino. 

2 – Como foi seu processo de aproximação com o rabino? Como bom rabino, ele fez algumas perguntas e quis entender os propósitos,  meu e do filme, mas logo topou. Tivemos algumas conversas antes da gravação e depois foi o momento de entrosamento no set, quando o importante é a confiança e empatia entre entrevistado/ entrevistador.

3 – O que mais o chamou atenção nesses 4 anos de pesquisa, e o que mudou ou permaneceu quando passou a acompanhar sua rotina? O rabino sempre foi muito autêntico e transparente, então não houve surpresa nem mudança na minha opinião sobre ele. Sobel é inteligente, liberal, vaidoso e polêmico. Acho que o filme conseguiu evidenciar um pouco de cada uma destas características.

4 – A juventude atual não sabe a importância de Henry para a época do combate à repressão militar. De que forma o senhor acha que a História do Homem Henry Sobel ajuda a resgatar isso? Acho que ajuda muito. Quem não conhece o Sobel e a nossa história vai ter a oportunidade de conhecer um pouco mais. O documentário tem o intuito de discutir temas como a ditadura militar, mídia, fundamentalismo religioso, assuntos contemporâneos que precisam ser abordados.

 5 – A História do Homem Henry Sobel se vale apenas do uso de entrevistas e vídeos para contar a trajetória de Sobel, e conseguimos perceber, apenas pelas falas dos entrevistados, uma trajetória linear de narração: uma parte para a trajetória até o Brasil, os primeiros anos no Brasil, a luta na ditadura, pós-ditadura, e o episódio das gravatas. Para você, como essa opção de montagem ajuda a montar o perfil do rabino? Essa opção de montagem linear tem o intuito de mostrar a construção da personalidade do rabino. Não dava para começar de traz para frente, tínhamos que dizer que ele é fruto das características dos pais, sua vivencia nos Estados Unidos, que o episódio com o Vladimir Herzog foi fundamental para a redemocratização do Brasil, que sua liderança nos diálogos inter-religiosos e nos direitos humanos trouxeram uma proximidade com a mídia e com outros líderes. Enfim, cada escolha que fazemos gera uma consequência e abre um novo caminho.

6 – E por que A História do Homem Henry Sobel? O que isso pode dizer sobre o personagem Henry Sobel? Todos conhecemos o personagem Sobel, como conhecemos os personagens de todos os nossos amigos, familiares e colegas de trabalho. Mas a vida não é só um espetáculo, é também identidade, humanidade. O filme quer mostrar que o homem é complexo, imperfeito, muito mais do que a imagem que passamos para o mundo.

Assista ao trailer de A História do Homem Henry Sobel

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