Lucy parte da seguinte premissa: Nós, humanos usamos apenas 10% da capacidade de nossos cérebros. Os golfinhos usam uma percentagem maior, cerca de 20%, e por isto desenvolveram um sonar próprio, muito mais efetivo do que qualquer sonar já desenvolvido por um ser humano. Ou seja, enquanto o ser humano desenvolve coisas para “ter”, se utilizasse mais de sua capacidade cerebral, teria um controle maior sobre seu próprio corpo e desenvolveria coisas para si próprio, para “ser”. Obviamente é uma premissa completamente inverosímel e se você se prender a isso não vai gostar absolutamente nada do filme, porém se der uma chance para o absurdo, pode se divertir com a nova e inesperada empreitada de Luc Besson.

Filmes de ficção não são tão raros assim, e já estamos acostumados a ver filmes com extraterrestres, fantasmas, elfos, bruxos entre outros seres e situações fantásticas. A diferença é que Lucy trata o fantástico de forma mais próxima à nossa realidade e ainda faz isso didaticamente, tentando dar explicações à suas características fantasiosas. Provavelmente por isso tenha provocado alguma discussão em torno da verossimilhança de sua premissa. Mas que não nos enganemos, até mesmo o próprio diretor fez questão de reiterar que o filme não passa de uma ficção científica e nada mais, portanto compre um pacote de pipocas e se deixe levar pela fantasia proposta.

Há no filme porém um outro elemento, bastante peculiar, que é uma espécie de tentativa de discutir um existencialismo metafísico. Ele se mostra já desde o começo, emulando uma certa homenagem à aurora dos dias de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e segue com alguns inserts que fazem lembrar bastante o que fez Lar Von Trier em seu “Ninfomaníaca”, utilizados para ilustrar melhor o momento da ação. Opção que soa completamente desconexa com a proposta de Lucy e que nada mais faz do que deixá-lo ainda mais didático. Como se o espectador não fosse capaz de sentir uma tensão de uma certa cena.

Em paralelo a isso se dá a narrativa principal de Lucy, que só em seu final vai ter de fato uma fusão maior com toda essa metafísica com que vem flertando durante todo o seu decorrer. Nela temos uma Scarlett Johansson que coincidentemente mescla a estranheza de sua personagem em “Sob a Pele” com a máquina que interpreta em “Ela“, colocando-a de vez como atriz com personagens mais interessantes do ano. Por outro lado temos um Morgan Freeman que volta a soar repetitivo em mais um papel onde ele nada mais faz do que explicar os elementos do filme de forma didática, coisa cada vez mais recorrente em sua carreira.

Em suma, a proposta de Lucy é até bastante interessante e é possível ver um certo esforço em direção a certa grandiosidade. Perto de Transcendence outro filme recente que tinha uma temática bastante parecida, Lucy é até bastante interessante, mas isso também se deve ao fato de o filme de Johnny Depp ser um completo fiasco. Mas Luc Besson se perde em meio a sua ânsia de grandeza e acaba entregando algumas cenas patéticas, como a que a personagem liga para mãe, em um exemplo de melodrama dos mais forçados, e utiliza disto para contar ao espectador todos os efeitos da droga que contaminou seu corpo. Ou então quando a personagem dá um beijo totalmente aleatório em um policial, buscando ali algum resquício de humanidade em si. Ou seja, um beijo completamente vazio de sentimentos, pura degustação de sensação física, como exemplo de algo humano.

Mas mesmo perdido em um existencialismo metafísico falsamente profundo, a verdade é que até que dá pra curtir Lucy como um exemplo levemente excêntrico de cinema pipoca, onde dentro da realidade estranha proposta pelo filme, consegue se organizar de forma bastante coerente e se mantendo interessante do princípio ao fim com toda sua ação, tiros, história de máfia coreana, montagem clipada e etc…

Assista ao trailer de Lucy

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