Para começar a palestra, o escritor Valter Hugo Mãe mãe leu, durante vinte minutos, um texto escrito especialmente ao segundo capítulo do Litercultura, evento literário que ocorre em Curitiba desde maio, com ciclo de palestras que se destacam pelos convidados internacionais. Todos foram às lágrimas com as palavras do escritor, que com elas convidava a todo indivíduo a se sentir prolongado no próximo para reencontrar sua própria humanidade: “Estou com uma obssessão em mostrar às pessoas que não é porque temos esse aspecto físico que isso nos torna humanos. É preciso conquistar o título de ser gente”, ele explicou, ao final da leitura do texto, cuja versão impressa deve sair no final dos ciclos de palestras do evento, entre outubro e novembro.

A seguir, o escritor mostrou um teaser do documentário O sentido da Vida, do diretor português Miguel Gonçalves Mendes (o diretor de José & Pilar). As cenas, quase bergmanianas, mostravam a ida do português a Islândia, país que serve de cenário para seu último romance, A Desumanização, que conta a história de uma garota que perde a irmã gêmea e precisa lidar com o luto repentino. O cerne desse enredo, segundo o autor, é a capacidade de acreditar que “uma pessoa que morreu não é como se não houvesse existido”. No filme de Tavares, os livros de Mãe (que aliás é um sobrenome que o autor criou para não dar preferência ao sobrenome do pai, e assim impor a presença das mulheres) representam para um paciente terminal um caminho para compreender o sentido da própria existência.

 Angolano e filho de portugueses, Valter Hugo Mãe saiu da cidade de Saurino quando era criança, e só retornou recentemente. Mas a origem sempre marcou sua trajetória, principalmente pelo preconceito que sofreu durante a infância:

“Me chamavam de preto. Na escola, que dava café-da-manhã para as crianças, eu só recebia metade do copo de leite e às vezes nem recebia. A funcionária dizia que ele não era para preto, porque se assim fosse o leite não seria branco”, lembra. Isso o tornou totalmente intolerante com o preconceito, que definiu como uma estupidez. “Só assim para podermos entender como uma pessoa pode se sentir mais gente do que outra só por causa da sua cor”, disse, sendo ovacionado com entusiasmo pela platéia.

Embora os livros de Valter tenham como palco aldeias, lugares inóspitos e com tons de realismo fantástico, a denúncia social não deixa de aparecer neles, estando sempre atrelada ao apelo do encontro da espiritualidade nas relações humanas, que nas histórias são assombradas pelos ecos de um passado intolerante. Para citar alguns exemplos, em A máquina de fazer espanhóis o protagonista é confrontado com a decadência de uma sociedade portuguesa que se sente subjugada ao povo vizinho do título; em O filho de mil homens, o personagem Antonino é rejeitado por causa da sua homossexualidade, preconceito que para Valter também está presente no “saudosismo nefasto” dos portugueses:

“Sim, há pessoas que sentem falta de Salazar, porque ele nos obrigava a ir à missa todos os domingos e as famílias, segundo essas pessoas, estavam no lugar, com as mulheres sendo mulheres e os homens sendo homens, sem essa bagunça de hoje que as novelas ensinam”, ironiza, com profundo desespero de quem sente, na Europa, um retorno ao autoritarismo e a sentimentos de intolerância.

“São em vários países, e é como se a repulsa que aprendemos a ter a episódios tão distantes como o Holocausto não valesse de nada. Eu estou tão assustado que se um dia eu fugir para o Brasil, vocês entenderão por que”, ele conclui, levando todos às gargalhadas, em parte encantados com e encanto e a gratidão do autor pelo país, em parte porque alguns talvez tenham lembrado que por aqui as feridas do ódio estão acobertadas, mas também doem e matam, longe do encontro no outro que, Valter talvez não saiba, é constantemente rejeitado para os negros e pobres desse país que ele aprendeu a amar incondicionalmente.

Anúncios