Valter Hugo Mãe ficou conhecido no Brasil em 2011, quando, durante sua apresentação na Flip, leu uma carta de amor ao país. O episódio conquistou várias fãs – principalmente mulheres, tocadas pela prosa poética do autor – e o romance que  divulgava naquele momento se tornou um sucesso, e com justiça. O Filho de Mil Homens pode ser considerado um Tratado sobre o Afeto.

Crisóstomo é pescador e aos 40 anos chega à conclusão de que quer ter um filho. Se sente uma pessoa incompleta por isso. Mas no primeiro capítulo surge Camilo, garoto órfão que acaba de perder o “avô”, um senhor que o adotara. Assombrado  com a ideia de ter problemas de colesterol por não ler ou de ser eternamente assombrado pela presença da esposa do avô, o menino é ansioso por um novo afeto, e quando conhece o pescador acha que deve merecer o carinho deste. Enumera suas qualidades, mas Crisóstomo só faz uma única pergunta: se o garoto está disposto a ser seu filho.

Os dois começam a morar juntos, e uma terceira personagem aparece: Isaura, que também ganha o afeto gratuito do pescador, e de quebra seu marido gay, Antonino. Formam uma família considerada fora dos padrões, mas suficiente para resolver os problemas emocionais das pessoas ao redor que, a princípio os rejeita. A entrega gratuita de Crisóstomo ao afeto cura a vergonha de uma mãe pela homossexualidade do filho.

Antonino, aliás, é o personagem que parece sintetizar a saga de todas as relações de um ser humano:  começa amado mas é rejeitado por esse mesmo amor maternal quando resolve assumir sua identidade; é desprezado pela esposa, mas ao ser resgatado por Crisóstomo, passa a ser amado por todos novamente, já que tem a oportunidade de mostrar o que o impediu de ter um final diferente: o fato de nunca ter se entregue à solidão e tal como Crisóstomo, amar sem concessões.  Essa ideia de não perder a si mesmo por meio do afeto ao próximo é algo muito comum nos livros de Mãe, e com esse personagem ganha passagens marcadas por uma poesia sutil, sempre acompanhada da linguagem concreta do cotidiano:

“A Isaura elogiou que tivesse arrancado os fetos das floreiras da casa. Estavam abertas as camélias e os agapantos. Tinha posto buganvílias a cair na parede abaixo e as buganvílias eram as mais extravagantes das flores. Havia muita coisa certa no trabalho de Antonino. Quando falou da morte da Rosinha e da adoção da Mininha pela Matilde, ele apenas denunciou o carinho que esperava do mundo. Tratava as coisas todas como se as coisas fossem para melhorar. Era triste que ninguém tivesse percebido isso até então.”

Mãe (um sobrenome criado pelo autor como forma de protesto ao patriarcado, e uma homenagem às mulheres) abdica, pela primeira vez do uso de minúsculas no começo das frases, uma característica presente nos seus quatro livros anteriores a este. Era uma forma de manter a vocalidade das pessoas comuns que habitam suas histórias. Mas de certa forma, graças à linguagem sintética dos capítulos (que ganham contornos de contos, independentes), do próprio bucolismo dos  personagens e da valorização de histórias comuns, o autor consegue manter sua ideologia de que a literatura deve ser habitada por histórias comuns, para serem especiais aos olhos de qualquer pessoa.Escreveu, sem querer, uma ode ao viver.

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