Amantes Eternos se inicia com um belo jogo de montagem que funde um céu estrelado, um disco de vinil e os protagonistas do filme, cada um em seu quarto, em um movimento rotacional, acompanhado da música “Funnel of Love” de Wanda Jackson, em uma versão mais lenta e melancólica interpretada pela banda do próprio Jim Jarmusch. O filme acompanhará os vampiros Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), em uma contemporaneidade tediosa e niilista.

A estranheza é um elemento bastante presente na filmografia do diretor, que trabalha muito com situações de não-pertencimento. A proposta aqui é de fazer um filme sobre vampiros, mas bastante diferente dos clássicos de gênero que costumam tratar as criaturas como monstros ou vilões, e também com um tratamento diferente da versão teen que foi adotada recentemente. Os vampiros de Jarmusch carregam consigo o peso da imortalidade, e com ela, o conhecimento adquirido com o passar dos séculos. Toda a vivência acumulada desemboca em uma sociedade atual que tem os humanos gentilmente apelidados de “zumbis”.

O personagem de Adam, envolto em um vazio existencial, carrega consigo um tom tedioso, presente não apenas em seu semblante, mas também nas músicas que compõe, mas não por isso deixa de manter um certo charme que traz um espírito cool junto dele. Aliás Amantes Eternos carrega esta aura pop underground, fazendo referências a Jack White e tendo em sua trilha sonora bandas como Black Rebel Motorcycle Club e White Hills. Isso sem contar a direção de arte, ótima por sinal, que carrega a casa de Adam com antiguidades das mais diversas e interessantes.

Amantes Eternos brinca o tempo todo com as possibilidades oferecidas pelo roteiro. No mundo de hoje as pessoas andam tão intoxicadas com poluição e outras coisas fazendo com que os vampiros tenham dificuldade em encontrar sangue puro para consumir, o que faz com que surja uma espécie de mercado negro de sangue. Há também uma participação (e uma “vampirização”) de Christopher Marlowe (John Hurt), famoso dramaturgo do século XVI, suposto autor das peças de Shakespeare, fato inclusive que o filme utiliza em prol de sua comédia secular. E claro, uma porção de referências de Tesla a Lord Byron. Os nomes utilizados pelos protagonistas em situação de disfarce remetem sempre a grandes nomes da história, Fibonacci, Dr. Fausto, entre outros. O que deixa-nos com uma dúvida, se Adam e Eve (Adão e Eva) são mesmo seus verdadeiros nomes, dando um tempero interessante às curiosidades do filme.

A escolha de Tilda Swinton para dividir com Hiddleston o protagonismo de Amantes Eternos não poderia ser mais acertada. A atriz empresta toda sua exoticidade à personagem, que é o lado mais sensato da relação. Enquanto Mia Wasikowska encarna Ava, irmã de Eve, uma eterna adolescente que se contaminou pelas futilidades da contemporaneidade e não se deixou amadurecer.

Jarmusch consegue fazer um filme despretensioso mas muito bem cuidado, conseguindo inserir o espectador em um universo peculiar. A trama em si fica em segundo plano, pode-se dizer até que o final é um pouco sem sal, mas o interessante de Amantes Eternos é justamente nos sentirmos parte daquilo, dentro do que seria uma rotina de vampiros nos dias de hoje, o que é alcançado com bastante êxito.

Assista ao trailer de Amantes Eternos

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