James Gray está prestes a completar vinte anos como diretor de longas. De 94 até aqui foram apenas cinco filmes, mas todos contenedores de uma força cinematográfica imensurável. Com um estilo que faz lembrar o cinema clássico, e não qualquer cinema clássico, mas sim o dos grandes mestres, que tinham total controle sobre a luz e a mise-en-scene de seus filmes e com estas, contavam muito mais do que com os diálogos. Os filmes de Gray vistos por olhos desinteressados, podem parecer apenas bons filmes, muitas vezes dramalhões inclusive, porém são muito mais do que isso. Há ali um cuidado com o sutil e com os detalhes, que cada vez mais perece nos dramas atuais, que buscam o frenesi pela grandiloquência, enquanto Gray alcança a grandiloquência através das pequenezas.

Era Uma Vez em Nova York – título nacional recém confirmado pela distribuidora do filme, e que toma o lugar da tradução literal “A Imigrante”, que já estava na boca dos cinéfilos há meses – nos apresenta uma Nova York de 1920. Assim como em outros filmes de Gray, a vida da cidade não é mostrada em seu centro, naturalmente charmoso mas também plastificado, mas em seus entornos, nas histórias de pessoas irrelevantes, imigrantes no filme em questão. Também presentes em outros filmes do cineasta, os imigrantes de Gray são partes do ecossistema da cidade e não corpos alheios a ele.

Ewa (Marion Cotillard) e sua irmã chegam a uma nada convidativa Nova York, apresentada por um plano inicial que por si só diz muito sobre o que as espera, assim como diz muito sobre o cinema de Gray. A irmã tem tuberculose e fica retida no hospital da ilha Ellis, enquanto Ewa tem problemas ao entrar no país por conta de um incidente que houve no navio que as trouxe, incidente este, que não conheceremos por boa parte da sessão. Bruno (Joaquin Phoenix) ajuda-a a passar para o continente e colabora para que ela consiga se estabilizar no novo país.

Cotillard talvez tenha entregue a maior atuação de sua vida, passando com o olhar – e o olhar é sempre um elemento bastante forte no cinema de Gray – toda a força de sua personagem. É a primeira protagonista feminina nos filme do diretor, que em Era Uma Vez em Nova York abre mão de outra característica bastante presente em seus filmes, a família, presente em todos os seus outros longas e que aqui fica resumida na irmã e nos tios, todos personagens que pouco aparecem na trama. Ewa está praticamente só, dependendo de pessoas em quem não confia.

Sobre a construção fílmica de Era Uma Vez em Nova York, o perfeccionismo de Gray continua presente e intacto. Não há planos inúteis, tudo está ali por um motivo. E o uso da luz para compor a narrativa, mostrando somente parte da cena, ajudando a construir a tensão quando esta se mostra necessária. Como dito acima, é um cinema que se visto por olhos menos atenciosos, pode parecer apenas um bom filme. E isto se dá por conta da direção sutil empregada pelo diretor, que muitas vezes adiciona apenas um pequeno elemento, um detalhe, mas que será trabalhado e mais a frente se mostrará peça chave da trama. Uma das cenas mais fortes do filme mostra justamente isso, quando em um diálogo, já nos minutos finais, toda uma realidade a qual fomos apresentados ganha um novo significado a partir dele.

Aliás, as grandes cenas marcantes, costumeiras nos filmes do diretor, também ali estão. E assim como em seus outros filmes, constroem sua grandeza sem precisar de grandes afobações. Seja na tensão criada no hospital em “Caminho Sem Volta”, seja no beco de “Amantes”, na marca da arma decalcada no rosto de “Fuga Para Odessa” ou até mesmo na perseguição de “Os Donos Da Noite”, esta uma cena menos delicada, frente as outras, mas melhor trabalhada e muito mais forte, cinematograficamente falando, que qualquer outra cena de perseguição de carro na história do cinema. Em Era Uma Vez Em Nova York estas cenas são ainda mais sutis, mas não por isso menos grandiosas. Prova disso é o plano com que o filme se encerra, tão cheio de potência quanto o plano de abertura, ambos incrivelmente simples, mas com um discurso fortíssimo no diálogo de seus elementos.

Assista ao Trailer de Era Uma Vez em Nova York

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