No último dia de competição do festival – a programação de domingo terá, além da premiação, três longas, mas todos internacionais – a maratona começou mais cedo, logo às 15h era projetado o primeiro longa do dia, o mexicano “Paraíso”, posteriormente mais dois curtas e três longas terminariam de preencher a noite do festival.

A cada dia o crítico Rubens Ewald Filho apresenta o festival ao lado de uma atriz diferente. Maria Flor, Bárbara Paz, Vera Holtz, foram algumas delas, sempre globais, simpáticas e sorridentes. Neste sábado a convidada foi a atriz Márcia Cabrita, que roubou a cena com seu humor, fazendo piada com os homenageados da noite, comerciantes da cidade de Paulínia, transformando o momento que tinha tudo para ser tedioso, em um dos pontos altos da noite.

A grande atração da noite foi a presença de Fernanda Montenegro, que foi apresentar o filme “Infância”, de Domingos Oliveira, no qual figura no elenco. A atriz foi aplaudida de pé pelo público que lotou os mais de 1200 lugares do auditório.

O filme de Domingos é formado por memórias dos tempos em que ele era criança e morava com os pais e a avó (Fernanda Montenegro), viciada no programa do jornalista Carlos Lacerda, em uma imensa casa do Rio de Janeiro, frequentada regularmente por diversos outros personagens das lembranças do diretor.

Se o cinema é a arte que mais se aproxima da memória, como pensava Tarkovski, Domingos o usa em stricto sensu e em um caleidoscópio de lembranças, redesenha sua infância com as verdades que lhe acompanharam na memória.

Domingos filma de forma quase caseira, mas não por isso deixa de fazer um cinema interessante. A câmera flui com naturalidade entre os personagens, captando uma intimidade que somente o próprio interlocutor da história poderia alcançar. Há alguns movimentos de slow motion que podem soar forçados, e até mesmo atuações demasiadamente “novelescas”, mas tudo cabe no clima que o filme propõe, de um cinema leve e agradável.

O outro longa em competição da noite foi “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante. Um título que carrega em si uma grande responsabilidade, reforçada pelas palavras do diretor antes de a sessão se iniciar, “O filme se passa no sertão, que serve como metáfora da alma humana”.

Somos apresentados a um vilarejo bastante pequeno e simples, com personagens estereotipados e suas histórias. Boa parte do filme, praticamente todo o desenvolvimento dos conflitos, é dado de forma bastante lenta e sem tempero, os personagens até criam uma empatia com o público mas bastante sutil. A exceção fica por conta do personagem interpretado por Hilton Lacerda, um artista visceral que parece viver fora de seu habitat natural, dono das melhores cenas do longa, incluindo uma performance em cima da música “Fala” do grupo Secos & Molhados, que foi aplaudida durante a projeção.

O filme parece guardar toda sua força para seu final, que acaba prejudicado pelo fraco desenvolvimento que o precede, mas não deixa de revelar uma boa estreia em longas metragens para o diretor.

Mas o que fez o dia realmente valer a pena foi “Geronimo” de Tony Gatlif. O diretor, conhecido por retratar a cultura cigana em seus filmes, apresenta uma história aos moldes de Romeu e Julieta, tendo como personagem principal uma educadora que tenta controlar a tensão entre turcos e ciganos depois de uma jovem turca fugir de seu casamento arranjado para ficar com seu namorado cigano.

Bastante experiente, o diretor constrói um de seus melhores trabalhos. Com uma mise-en-scene pesadíssima, apresenta as cenas das brigas em um formato que flerta com o de musicais, sem medo de ousar, passeando entre gêneros e sempre mantendo a cultura cigana em foco, que aliás, sempre reforça seus longas com trilhas lindíssimas.

O outro longa estrangeiro do dia, “Paraíso”, de Mariana Chenillo, conta a história de um casal de obesos que decidem começar uma nova dieta, um deles tem mais facilidade para perder peso, o que provoca problemas na relação deles.

Um filme simples, sem medo de se assumir comercial, portanto leve, mas muito bem executado e construído, conseguindo emocionar os espectadores que se dispuserem a entrar na história. O que causa um pouco de estranheza é que o filme parece tentar passar algum tipo de mensagem, mesmo não sendo necessário, mas esta não fica muito clara.

Os curtas que completaram a programação do dia foram “Edifício Tatuapé Mahal”, de Carolina Markowicz e Fernanda Saloum, uma divertida animação sobre a história de um boneco de maquete, que sabe brincar muito bem com as possibilidades oferecidas pela matéria prima do curta, os bonequinhos presentes em maquetes de edifício. Quando termina, deixa uma sensação de “quero mais”, diferente de “Recordação”, de Marcelo Galvão, um curta exageradamente simplório onde as atuações e a montagem chamam a atenção num mal sentido.

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