Vamos caminhando para a reta final do festival. No sábado serão projetados os últimos filmes em competição e no domingo três atrações internacionais, além da premiação. Enquanto isto a sexta nos mostrou alguns dos filmes mais interessantes do festival, “Casa Grande” e “Sangue Azul”. Felizmente ambos com bastante público.

A programação se iniciou com o curta “190“, de Germano Pereira, um filme bastante aquém da qualidade que o festival vem mostrando, que tem as jornadas de junho como plano de fundo em um exercício de cinema totalmente desastroso. Logo em seguida “O Clube“, de Alan Ribeiro, não teria que fazer grande esforço para agradar ao público apenas com o contraste de qualidade entre os curtas do dia, mas foi além e se mostrou uma boa surpresa. O curta trabalha, coincidentemente ou não, com transformistas, que já foram personagens em “Jessy” e “Castanha” nesta edição do festival, além de se utilizar dos próprios frequentadores do clube em questão como atores, fazendo lembrar também o processo de “Castanha” e “Aprendi a Jogar Com Você”.

O filme internacional do dia foi o excelente afegão “A Pedra da Paciência“, de Atiq Rahimi, que não é apenas o diretor do filme, mas também o autor do livro no qual o filme foi inspirado. O filme aborda criticamente diversas questões sobre a situação da mulher no Afeganistão, por meio da triste história de uma mulher que zela o corpo de seu marido que se encontra em uma espécie de coma.

A primeira grande atração da noite ficou por conta de “Casa Grande” de Fellipe Barbosa, o destaque da noite, visto que além de dirigir e roteirizar seu longa, ajudou também no roteiro do longa de Lírio Ferreira, que encerrou a noite.

Logo na primeira cena, é possível notar que não estamos diante de um filme qualquer. Temos um plano de uma enorme casa ao fundo, é noite, suas luzes estão todas acesas, enquanto no primeiro plano do quadro observamos um homem em uma jacuzzi ao lado da piscina. Ele se levanta e lentamente vai caminhando ao interior da casa, e depois para seu quarto. O plano continua estático, acompanhamos esse caminho apenas com o apagar das luzes. O diretor usa a imagem para compor a narrativa e não apenas para ilustrá-la.

O filme trata de uma família de classe média alta no Rio, tendo o filho de 17 anos como protagonista. Diversos temas são tratados pelo diretor, de discussões familiares à conflitos de classes, em uma sequência de cenas construídas minuciosamente de forma que é inevitável não se reconhecer em um punhado delas.

É difícil deixar de ligar “Casa Grande” a “O Som ao Redor”. Ambos tratam de temas bastante similares e tem bastante êxito na proposta. O filme de Barbosa porém, se constrói de forma mais bem humorada, as risadas eram constantes e unânimes na plateia, e tende um pouco mais para o didatismo ao tratar de certos temas, discursando diretamente sobre estes, enquanto o filme de Kleber Mendonça constrói sua mensagem somente através de situações de roteiro. Dificilmente terá a mesma projeção que o filme pernambucano, mas sem dúvidas que merece atenção similar.

Para fechar a noite, Lírio Ferreira nos presenteia mais uma vez com seu universo em “Sangue Azul“. Com uma direção muito mais regular do que a apresentada em seu último longa ficcional, “Árido Movie”, Lírio nos mostra a visita de um circo a uma ilha. Um dos integrantes do circo, Zolah (Daniel de Oliveira), é um antigo morador da ilha que a revisita depois de muitos anos e se vê obrigado a tecer um diálogo com seu passado.

Dividido em quatro capítulos, o longa traz consigo o clima circense mesclado ao já consagrado estilo pernambucano de se fazer cinema, bastante visível nos filmes de Lírio e de Cláudio Assis. Não que o cinema de Pernambuco se limite a este estilo, mas é nele que se pode reconhecer mais traços da cultura pernambucana tendo dentre tantas características, o uso de personagens famosos do estado, como Lia de Itamaracá neste filme, uma trilha sonora pesada no regionalismo, além do forte uso de expressões linguísticas de lá, sempre com o delicioso sotaque bastante carregado.

O elenco é riquíssimo, contando com Paulo César Peréio, ótimo como sempre, Matheus Nachtergaele, Milhem Cortaz, entre outros. O filme se utiliza da grande variedade dos personagens para criar o clima que toma conta da tela na primeira metade da projeção, fazendo com que o espectador se sinta parte daquele universo formado pelos habitantes da ilha e os integrantes do circo.

Em um segundo momento, já caminhando para o final do filme, uma narrativa mais específica começa a dar seu ar da graça, mostrando um belo timing do diretor para contar a história, depois de já nos ter inserido em seu cenário. A história, por sinal, dá ainda mais força ao delicioso longa de Lírio. Destaque para uma cena lindíssima onde há uma espécie de dança filmada debaixo d’água, no oceano.

E vamos em frente porque apesar de faltar pouco, ainda não acabou. A maratona continua neste sábado e vamos torcer para que traga mais surpresas boas.

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