Na terceira noite do festival, a grande atração – no sentido de gerar uma grande agitação do público – foi o filme “Boa Sorte”, de Carolina Jabor, que conta com Deborah Secco no elenco. A presença da atriz global lotou o Theatro Municipal.

Infelizmente tal furor durou apenas por essa sessão e o boa parte do público deixou de ver ao menos duas grandes surpresas muito interessantes.

Sobre “Boa Sorte”, é uma interessante estreia em longas de ficção da diretora, que já trabalha com cinema, publicidade e televisão há anos mas ainda não havia se arriscado neste campo. O longa é baseado em um conto de Jorge Furtado, Frontal com Fanta, e adaptado para roteiro pelo próprio autor junto a seu filho.

A escolha do conto se mostrou muito interessante. Conta a história de João (João Pedro Zappa), um garoto viciado na mistura que dá título ao conto e é internado em uma clínica, onde conhece Judite (Deborah Secco), uma garota que também teve problemas com drogas, além de ser portadora do vírus HIV.

A direção é bastante sóbria e segura, além de dialogar muito bem com a cinematografia, que ficou nas mãos da uruguaia Barbara Alvarez (Whisky). Algumas cenas são ótimas, como por exemplo quando há uma correria pela clínica ao som de “Talk To Me” da Peaches, filmada toda em um único plano sequência.

A seleção de atores também é interessante, contando com nomes como Fernanda Montenegro e Cássia Kiss, além do jovem João Pedro, que consegue se destacar mesmo em meio de tantas outras estrelas. A atuação dele nas cenas da primeira parte do filme mostram a química do ator com o personagem interpretado.

O filme acaba cometendo alguns tropeços ao escolher não construir um clima pesado em demasia. A clínica por exemplo não passa o peso que um ambiente desses pede, e alguns diálogos, principalmente no início, não soam naturais. Porém são pequenos problemas que podem ser tolerados se considerarmos as pretensões que o filme apresenta, um cinema comercial mais sério, menos novelesco, que faz lembrar alguns filmes argentinos que estiveram em cartaz recentemente no Brasil.

A primeira surpresa da noite se deu com o curta “O Bom Comportamento” da jovem diretora Eva Randolph. Nele acompanhamos uma colônia de férias para adolescentes , os passeios, as gincanas, os flertes e alguns mistérios.

Eva consegue construir um clima de onirismo e desconforto com uma direção que chama muitíssima atenção, contando também com ótimos trabalhos de luz e som. Mesmo com apenas 20 minutos, é notável o êxito na construção de personagens e da atmosfera que o curta causa. Sem dúvida é uma diretora para grudarmos o olho, pois promete.

No fim da maratona mais uma grata surpresa, “Castanha”, do diretor gaúcho Davi Pretto. Infelizmente o filme foi projetado depois do grande furor de “Boa Sorte” e já bastante atrasado em relação ao horário previsto, injustiçando assim uma obra que merecia mais espectadores e atenção.

O longa acompanha o dia a dia de João Carlos Castanha, ator e transformista há mais de trinta anos no Rio Grande do Sul. Um personagem fortíssimo que além de ter uma incrível presença em tela e em palco tem uma complexidade de conflitos muito rica em sua vida, a qual o diretor sabiamente soube observar para transformar neste filme.

Se na quarta-feira o diretor Murilo Salles apresentou um documentário que propunha uma provocação neste jogo entre o real e a ficção, em “Castanha”, o diretor vai ainda mais longe, apresentando um trabalho que não faz questão nenhuma de dar respostas simples e dança entre a ficção e o documental de forma que fica imperceptível ao público decifrar o que ali de fato é real ou não.

O longa traz um tom bastante pesado e triste, ainda que com um personagem que mesmo em meio a tormentas traz leveza para a tela, a cena que serve como plano de fundo dos créditos finais é um exemplo bastante claro da capacidade de Castanha em lidar com bom humor temas sérios.

Um dos destaque fica por conta de dona Celina, mãe de Castanha, uma senhora que em seu jeito calmo de falar traz consigo um peso e um sofrer de uma vida rodeada de problemas e que parece querer apenas sossego para sua vida, mesmo que esse por muitas vezes pareça inalcançável. É muito bonita a relação de carinho entre mãe e filho mostrada no filme.

O ritmo do filme é muitíssimo bem trabalhado, aproveitando-se de toda a complexidade do personagem, é riquíssimo em cenas que se apresentam em uma ótima montagem. A direção é admirável, tanto na escolha das cenas, quanto no trabalho feito em cima destas com diversos personagens que não são atores profissionais, há aí muito de saber observar os momentos com delicadeza. A fotografia também é muito bem composta, sabendo extrair o máximo de ambientes minúsculos e trabalhando muito bem com o extra-campo.

A noite contou também com o curta “De Bom Tamanho”, uma comédia com roteiro simples, que se abre com um lindo plano de cima para baixo, mas que vai perdendo sua força ao longo de sua duração, mas ainda assim tem alguns bons momentos no diálogo.

Além do filme “As Férias do Pequeno Nicolau”, atração internacional do festival. É a continuação do longa “O Pequeno Nicolau”, que é baseado nos personagens de René Goscinny, o mesmo de Asterix. O longa é divertidíssimo e consegue trabalhar muito bem a linguagem infantil. Deve ser para as crianças desta geração algo próximo do que foi “Os Batutinhas” para as crianças do início da década de 90.

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