A segunda noite do Paulínia Film Festival apresentou os primeiros filmes em competição. Dentre os dois curtas e os quatro longas que formaram a corrida programação, quatro eram documentários, além de um curta de animação e um inusitado musical que se passa em um cemitério.

Infelizmente os atrasos não foram poucos e pelo tratamento dado ao fato, com a platéia tendo que sair do auditório e entrar novamente a cada sessão, esse problema não deve ter muitas melhoras nos próximos dias. Apesar de todas as pompas que o festival já criou na cidade e região, o publico não lotou o Theatro Municipal. Pelo menos 20% de suas cadeiras não estavam ocupadas, o que é uma pena.

A programação se iniciou com o ótimo curta “Jessy“, dirigido por Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge. É um documentário que mostra um grupo de drag queens ensinando a diretora e atriz Paula Lice a arte do transformismo, um sonho antigo de Paula. É muito interessante ver toda a atenção dada por eles às apresentações e como se desdobram para aproveitar o máximo possível o pequeníssimo espaço do palco.

O mais interessante é a leveza com que o filme é tratado. Comumente filmes que tratam sobre drags e travestis mostram o lado mais duro e triste da realidade delas, diferente de “Jessy”, que foca na espontaneidade criativa e no lado divertido dessas personagens que sabem transformar por exemplo um choque do microfone em parte do espetáculo da noite.

Mais tarde o experientíssimo Murilo Salles apresentou seu último trabalho, “Aprendi a Jogar com Você“, um documentário que flerta com cinema direto, que tem “O Caixeiro Viajante” dos irmãos Maysles como um de seus principais representantes. O filme acompanha DJ Duda, um dj e empresário da periferia de Brasília, sua esposa cantora e sua família.

O personagem principal tem uma força tremenda, está a todo tempo rebolando sua malandragem para conseguir ganhar dinheiro e manter sua família. O filme trata justamente desse jogo de cintura, essa coisa de conseguir se virar e extrair o máximo de cada situação.

É notável a capacidade da câmera de se tornar invisível na maior parte do processo, conseguindo captar momentos incríveis que transparecem toda a essência dos personagens, como uma cena onde os dois discutem a tarde em razão de contas a pagar. Posteriormente, antes de um show da esposa, Duda diz que a roupa com que ela irá se apresentar está feia, causando outro momento de discussão e, depois do show ser um sucesso ele é só elogios à ela, mostrando que nem mesmo a esposa é imune ao jogo.

Em alguns momentos ele consegue inclusive brincar com o diretor do filme, falando diretamente para a câmera em cenas que o diretor sabiamente incluiu no filme. A cena final se destaca dentre essas que tem a quarta parede rompida, não vou revelá-la por motivos óbvios, mas é uma sutil provocação do diretor neste jogo entre documentário e ficção.

O Samba” foi outra atração da noite, um documentário fora da competição, que é veiculado junto à programação especial da distribuidora Imovision que comemora seus 25 anos.

Dirigido pelo diretor francês George Gachot, mostra os bastidores da escola de samba da Vila Isabel, vinculando a história também a um de seus célebres integrantes, Martinho da Vila.

É de se estranhar que um tema como esse, tão brasileiro, seja tratado por uma figura de fora. Porém o diretor tem longa história com a música popular brasileira, tendo dirigido anteriormente documentários sobre Maria Bethânia e Nana Caymmi e parece compreender bem a essência dessa arte.

O diretor trata do amplo tema que propõe, o samba, focando em um pequeno universo, o macro pelo micro, e se sai muito bem nessa conversão. Com a escola de samba da Vila Isabel conseguimos perceber toda a questão da alegria presente nos carnavais, sem a qual não seria possível tamanha dedicação por conta de membros de diversas comunidades, além da questão de conseguir transformar o pouco em muito. Enquanto com Martinho da Vila ele mostra todo o carisma, simpatia e uma sutil malandragem presente em diversos personagens do samba, além de claro, se aproveitar da deliciosa presença do cantor em cena.

O ótimo domínio do olhar do diretor consegue transformar pequenos detalhes nos melhores momentos do longa. Sabendo focar por exemplo no mestre da bateria que rege empolgadamente os batuques que não aparecem na tela. Ou então um divertido momento onde a cantora grega Nana Mouskouri tenta acompanhar Martinho nos versos de “Canta Canta Minha Gente” em português e se enrola toda.

Outros momentos muito bonitos do documentário se dão na cobertura do carnaval, que é mostrado apenas em seus bastidores. Duas cenas chamam bastante a atenção, a primeira é quando a escola de samba entra na avenida e o diretor nos mostra o final desta entrada para o desfile, com os garis acompanhando varrendo o que sobra pelo caminho, como se fossem uma última ala a entrar na avenida, e a segunda é quando mostra uma feliz senhora que samba incessantemente do lado de fora do sambódromo ao som de sua escola, é lindo de se assistir.

A noite contou também com o simpático curta de animação “O Menino que Sabia Voar“, muito bem produzido e que consegue usar a simplicidade ao seu favor ao contar uma história de quase morte para crianças; “Neblina“, um documentário sobre o vilarejo de Paranapiacaba, na serra do mar, onde se localizam as ruínas do que um dia foi uma das principais vias férreas do país. O documentário é bastante interessante ao mostrar o depoimentos daqueles que lá ainda vivem e as imagens são impressionantes, de uma beleza rústica e triste, mas o filme se perde ao tentar dar uma aula de história com imagens de arquivo e uma narração em off.

E fechando a noite, um simpático musical da diretora Juliana Rojas (Trabalhar Cansa), “Sinfonia da Necrópole“, que já havia sido lançado no ano passado em uma versão média-metragem para a TV, com o nome de “Ópera do Cemitério” e que aqui se apresenta mais encorpado com uma montagem mais voltada para a linguagem de cinema. Uma ousada e louvável incursão nos musicais, que trabalha com um tom quase farsesco e pitadas de humor negro. Além é claro, da inusitada mistura que apresenta um filme musical que se passa em um cemitério. Vê-se claramente que o filme tem orçamento baixo e é incrível o que Rojas conseguiu extrair de tão pouco. Um filme delicioso.

Anúncios