O vencedor do Oscar de melhor documentário em 2014 foi o filme “A um Passo do Estrelato”(20 Feet from Stardom), que era muito interessante por dar os papéis principais a backing vocals que contribuíram muito para a música, mas que atualmente sofrem de um ostracismo injusto e, muitas vezes cruel. Mas entre os indicados na categoria nessa última edição estava Cutie and the Boxer, do diretor Zachary Heinzerling, ainda inédito no Brasil.

Cutie and the boxer acompanha a trajetória do artista japonês Ushio Shinohara. Na década de 60, sua arte atraía curiosos, talk shows e exibições em galerias renomadas de Nova York, mas de acordo com o vídeo que Heinzerling mostra durante o filme, de algum programa televisivo da época, Shinohara era um “artista que os japoneses queriam comprar, e que os americanos achavam interessante, mas não a ponto de ser o seu gosto pessoal”. E no meio dos holofotes que não lhe rendiam segurança financeira, Ushio conhece Noriko, estudante de artes vinte anos mais nova, também japonesa. Seis meses, depois, ela está grávida e morando com o artista, e é esse relacionamento de mais de quarenta anos que Heinzerling acompanha, desaparecendo atrás das lentes, para dar mais espaço à intimidade do casal.

Aos poucos, Cutie and the boxer mostra que não está contando a história da rotina de um artista e sua esposa, mas de um casal de artistas: Noriko abdicou de sua carreira pelo casamento, mas agora quer retomar seu trabalho. Com a personagem Cutie, ela desenvolve uma série de pinturas que contam a história da sua relação com Ushio. Embora não apareça em momento algum, o diretor se faz presente quando sua câmera se apropria da vida de Cutie para contar a história de Ushio e Noriko: as animações ganham vida, e mostram momentos de alegria e tristeza por uma relação que, nas palavras de Noriko, durou porque ela foi resistente.

Durante uma entrevista para o WMagazine, Heinzerling explica como se aproveitou do fato do casal usar roupas antigas, em tons pasteis desbotados, para usar lentes sensíveis que passassem o mesmo efeito das roupas para a fotografia do filme, além da trilha sonora, que alterna entre beleza, melancolia e desordem. Além de dar mais fidelidade à trajetória de Ushio e Noriko, Cutie and the boxer claramente assume o papel do olhar da esposa, já que o artista muitas vezes não consegue enxergar a complexidade da própria vida e do próprio relacionamento. Isso é muito claro quando, por exemplo, nas cenas em que ele é confrontado com a felicidade de Noriko em estar sozinha para produzir, já que não consegue compreender como Cutie podia chorar com raiva e domesticar o marido sem deixar de amá-lo.

O maior mérito de Cutie and the Boxer é contar o processo de libertação de uma mulher. Noriko é casada, com um marido e filho alcoólatras, mas nunca esqueceu por que foi a Nova York, e encontrou na arte a sua arma de luta e sua expressão de vida. Em tempos de culto à Frida Kahlo, Noriko também merece ser conhecida. E admirada.

Assista ao trailer Cutie and The Boxer

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