Dentre tantos assuntos que ainda rondam a Copa do Mundo FIFA 2014, um elemento preocupa aqueles que acreditam que o Brasil esteja na final em 13 de julho – o fantasma da decisão com o Uruguai em 1950. Trata-se de um dos maiores desastres esportivos do nosso país. Shakespeare jamais escreveria igual tragédia que caberia em um conto de Edgar Allan Poe. Através de extenso material de arquivo encontrado e restaurado, a Copa de 50 finalmente ganha um documentário pela direção dos uruguaios Sebastián Bednarik e Andrés Varela. Maracanã é um filme indispensável para aqueles que ainda acreditam na magia do futebol.

Maracanã é carregado por Obdulio Varela, mítico jogador uruguaio, responsável por liderar a celeste ao título. O capitão é descrito por seus companheiros como um sujeito sério e que não abaixava a cabeça, capaz de agarrar o pescoço de quem não acreditasse na vitória ou lutasse até o fim. Obdulio é o símbolo da resistência à um resultado pré-programado. Diferente do modelo atual, o quadrangular final da Copa de 50 teve jogos entre os 4 melhores times – Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai. No último jogo da seleção brasileira bastava empatar com o Uruguai para comemorar o título.

Eram mais de 200 mil pessoas em um Maracanã construído para o Brasil sagrar-se campeão mundial. Nas ruas do Rio de Janeiro as pessoas festejavam e se cumprimentavam “Olá Campeão”. Antes da partida o então prefeito do Rio realiza um discurso vergonhoso e coloca imensa responsabilidade no grupo de jogadores. Apesar de ser melhor tecnicamente, o time brasileiro sente a pressão no gol de empate de Schiaffino. O estádio se cala e o silêncio anuncia a derrota, único resultado capaz de tirar o título da soberba. Emocionados os jogadores uruguaios comemoram ao final do jogo em um cenário de velório.

Não há como não se emocionar com o relato de Eduardo Galeano sobre o sentimento de Obdulio após a partida. O jogador vagou por bares do Rio de Janeiro e se comoveu com a tristeza do povo – “Como pude fazer isso a essa gente tão boa?”. Infelizmente o maior prejuízo recaiu sobre os jogadores brasileiros, principalmente o goleiro Barbosa, o bode expiatório de um evento fadado ao fracasso. Até falecer, em 2000, Barbosa carregou o estigma do fracasso de 1950, condenação perpétua de um pobre inocente.

Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera.” (Armando Nogueira)

Maracanã é um importante documento, do brasileiro acostumado a comemorar antes do apito final. Apesar do atual time do Uruguai já estar eliminado, há um fantasma que precisa ser exorcizado e apenas será com muita dedicação e humildade.

Assista ao trailer do documentário Maracanã

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