A cidade de São Paulo abrigou diversos cineastas importantíssimos como Carlos Reichenbach e Luís Sérgio Person, mas há tempos o cinema paulistano não produzia filmes que se mostrassem realmente interessantes. Isso vem mudando de uns tempos pra cá com uma nova geração em formação, constituída por cineastas como Marco Dutra, Juliana Rojas, Caetano Gotardo, entre outros, que têm entregado obras extremamente interessantes que não só são produzidas na grande metrópole, mas também carregam consigo todo uma bagagem adquirida na cidade. Riocorrente, de Paulo Sacramento é mais um dos filmes que nasce desta geração e sem dúvidas é o que carrega a cidade de forma mais visceral em suas entranhas.

Riocorrente se constrói em cima de quatro personagens. Exu, um garoto que vive nas ruas, ocupa a cidade de forma plena ao mesmo tempo em que vive à margem dela; Carlos, um malandro contemporâneo, que rouba carros para desmanches e que adota Exu como um filho ou irmão mais novo; Marcelo, um estudioso de artes que tem dificuldades em lidar com novidades e Renata, uma aventureira sexual que forma um triângulo amoroso com Carlos e Marcelo. São personagens quase brechtinianos, representando arquétipos muito comumente encontrados pela cidade.

A cidade por si só é uma personagem, e bastante forte. Ela é a causa e a cura de todas as angústias dos personagens que pertencem a ela, se alimentam dela, mas não sem que esta também os consuma.

A montagem e a edição de som são os principais motores para o desenvolvimento de Riocorrente: extremamente bem executados, contribuem para a construção sensorial a que o filme se propõe. Sem dúvida a imersão que se cria – e que exige uma dedicação quase total do espectador para o filme – é admirável. Alguns compararam a David Lynch, mas pessoalmente me remeteu, no melhor dos sentidos, à “Post Tenebras Lux”, de Carlos Reygadas, outro filme interessantíssimo que tem um resultado sensorial impressionante e, assim como o longa de Sacramento, se utiliza livremente da ferramenta do fantástico.

O grande tropeço de Riocorrente se dá em uma certa quantidade de soluções demasiadamente fracas. Seja em um diálogo em que quer deixar claro com todas as letras o “caretismo”de um personagem, seja em metáforas óbvias que aparecem, principalmente, no final do filme. Tais didatismos contrastam com tudo aquilo que o filme constrói de interessante e arriscam a comprometer todo o resultado. Mas não por isso devemos tirar o olho deste diretor, que tem já longa carreira no audiovisual, inclusive na direção do renomado documentário “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, e que com Riocorrente inaugura sua carreira em longas de ficção, não deixando dúvidas de que merece atenção.

Assista ao trailer de Riocorrente

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