Jean-Luc Godard. Eis um nome de peso. Em quase sessenta anos de carreira fez mais de cem filmes, entre longas, médias e curtas-metragens. Cravou seu nome na história do cinema, revolucionou a arte, filmou clássicos e continua a provocar até os dias de hoje, com um cinema que parece estar sempre à frente de seu tempo.

Com uma obra tão volumosa é natural que a atenção sobre seus filmes acabem se diluindo de maneira geral, com o foco sendo direcionado para algumas obras pontuais de cada fase de sua evolução como diretor.

Neste processo naturalmente acontecem injustiças, como é o caso deste “pequeno filme” chamado “Tempo de Guerra”. Lançado em 1963, pouco depois de “Viver a Vida” e pouco antes de “O Desprezo”, obras que ficaram mais conhecidas pela história, Godard lança um filme aparentemente simples, tímido, muitas vezes dito como um filme “menor” de sua filmografia, sem grandes nomes no elenco. Mas um olhar mais atento nos revela uma bela pérola a ser redescoberta.

O próprio diretor classifica o filme como uma fábula brechtiana, “um apólogo em que o realismo só serve para socorrer, para reforçar o imaginário”. O filme se passa em um país qualquer, que pode (e deve) ser qualquer país. Uma mãe, uma filha e dois filhos vivem em uma pequena casa, e recebem uma visita de militares com uma mensagem do Rei, que da mesma forma, pode ser qualquer rei ou entidade de poder. É uma intimação para a guerra aos dois filhos, com a promessa de que nela eles poderão saquear o que quiserem, assim poderão ficar ricos.

Não há nenhuma dramatização nos personagens, o que pode ser a maior causa de estranhamento do filme. Mas tal escolha faz parte da proposta do diretor em mostrar a guerra da forma mais fria o possível, sem buscar exageros ou comoções como o cinema costuma fazer. Não há heróis, no lugar deles há idiotas, contaminados por uma inocência caricata.

Suas ações são filmadas sempre de longe, nunca com closes, não há nenhum interesse em se extrair algum tipo de emoção dali, não há nenhuma. Os assassinatos são praticados à revelia. “O realismo não é fazer como as coisas verdadeiras, mas como são verdadeiramente as coisas” diz a frase de Bertold Brecht, reproduzida por Godard em seu texto sobre esse filme.

Uma ferramenta muito bem utilizada para demonstrar tamanha frieza são as cartas de soldados, utilizadas como intertítulos no filme. Descrevem atos de guerra com naturalidade impressionante, como se fossem apenas parte da rotina. Não se sabe se as cartas utilizadas são reais ou não, o filme não nos deixa isso claro, mas de qualquer forma é impressionante o diálogo delas com a proposta.

Quando os filhos voltam para casa, mãe e filha aguardam ansiosamente pelas riquezas trazidas por eles da guerra. Eles mostram uma maleta e dizem que ela contém todas as riquezas. É aqui que acontece uma das cenas mais interessantes do filme. A maleta contém cartões postais com monumentos, paisagens importantes, mulheres bonitas, animais exuberantes e estes cartões são tratados por eles como se fossem um título de garantia sobre aquelas coisas, que eles receberiam assim que a guerra terminasse. Godard propõe uma reflexão sobre o diálogo da sociedade com as imagens, de maneira que faz lembrar as ideias do filósofo Guy Debord, em seu texto sobre a “Sociedade do Espetáculo”. Curioso lembrar que Debord era antipático à Godard.

Apesar de a cena descrita acima ser bastante enfática quanto esta questão do relacionamento com a imagem, durante o filme todo isso é discutido. Só o fato de retratar a guerra como faz e por em cheque toda uma filmografia sobre o tema, já é um ato que fala muito por si só sobre isto, transformando o filme em uma espécie de objeto de estudo dele mesmo. Há uma outra cena bastante especial e que sintetiza muitas das ideias do filme. Ela se passa em um cinema, é a primeira vez que o personagem vai ao cinema. Há ali uma homenagem à Lumiére, uma ênfase à inocência do personagem, e sobre tudo isso uma discussão sobre o que representa o cinema. De certa forma ali Godard coloca sobre esta arte uma responsabilidade gigantesca. Em um mundo onde uma imagem pode valer mais do que a realidade em si, qual é o tamanho da força de um filme?

É absolutamente incrível a quantidade de reflexões que se pode garimpar dos mínimos detalhes deste filme. Um filme que num primeiro momento parecia simples mas que com sua meia hora final consegue ressignificar e/ou amplificar o significado de tudo que havia mostrado até então. Uma obra com uma força que não deve ser subjugada e que se encerra lindamente com um intertítulo que merecia figurar entre as grandes frases do cinema.

Assista ao trailer de Tempo de Guerra

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