Em Praia do Futuro o diretor Karim Aïnouz (Céu de Suely, Madame Satã) trabalha com sensibilidade em uma história sobre o não pertencimento. Sobre um personagem perdido no mundo em que habita e cheio de histórias mal acabadas.

O arco do personagem principal, Donato, protagonizado por Wagner Moura, é extremamente interessante. Um salva-vidas que trabalha na Praia do Futuro em Fortaleza, que pela primeira vez não consegue salvar uma vítima de afogamento e que acaba se envolvendo com o amigo da vítima, um alemão. Uma relação que pode ser de amor, mas que se inicia por conta de um sentimento de culpa. Durante o filme todo não nos fica claro qual destes sentimentos é o principal mantenedor do laço.

Aliás, uma característica bastante forte de Praia do Futuro, para o bem ou para o mal, é justamente isto de não deixar nada claro ali. Não há desenvolvimentos ou motivações. As coisas simplesmente vão se desencadeando, sem grandes explicações. Isto torna a experiência bastante difícil, posto que em muitas vezes o espectador tem que se desligar da tela, e por consequência do transe da sessão cinematográfica, para tentar juntar as peças e compreender melhor o que está acontecendo e o porquê.

Porém é justo dizer que ao exigir este exercício do espectador, ainda que correndo o risco de perder sua atenção, pode também resultar em uma maior empatia e diálogo para com aqueles espectadores que conseguirem acompanhar a experiência que o filme propõe.

Um dos grandes méritos de Praia do Futuro é uma espécie de subversão ou inversão de uma das características mais presentes no cinema, principalmente o cinema mais clássico, que é a fetichização do corpo feminino. Em “Praia do Futuro”, o diretor fetichiza corpos masculinos.

Logo no início há um close no tríceps de Donato, um câmera que parece admirar as formas com que os músculos se apresentam. Ao longo do filme isto segue. Há uma bela cena onde todos os salva vidas se exercitam na praia, novamente há ali a câmera que não apenas registra, mas parece adorar o objeto registrado. Durante toda sua duração, esses momentos continuam a aparecer, inclusive com diversos planos de nudez muito bem fotografados.

Aliás, a fotografia de Praia do Futuro, os enquadramentos, mais precisamente, são lindos, muitas vezes colocando os personagens sozinhos, envoltos no vazio, contrastando com o espaço onde estão. Porém, apesar disto, muitas vezes acaba soando repetitiva e consequentemente correndo o risco de banalizar seu significado.

É interessante notar que logo depois de Hoje eu Quero Voltar Sozinho, Praia do Futuro tenha entrado em cartaz, também com relativa boa distribuição nacional. Sem dúvida é um mérito do cinema colocar a questão homossexual sem a envolver em estereótipos. Os personagens em ambos os filmes são totalmente livres de afetação, diferente de muitos personagens gays que são colocados na televisão de forma escrachada, que só perpetua preconceitos. Interessante também notar que o próprio ator Wagner Moura disse em coletiva do filme que este é o personagem mais próximo do Capitão Nascimento que ele já fez, por sua complexidade e virilidade.

Jesuíta Barbosa é outro que vem se destacando no cenário atual do cinema brasileiro. Depois de ótima atuação em “Tatuagem” ele volta a se sair muito bem aqui, aliás, o elenco todo tem boas atuações em personagens com bastante complexidade em suas construções. Pena que estas possam acabar encobertas pelas escolhas um pouco confusas da direção e do roteiro que por muitas vezes acabam não convencendo o espectador de suas verdades.

Assista ao trailer de Praia do Futuro

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