O ano de 2014 cada vez mais se revela como o ano em que o cinema nacional resolveu apostar em filmes de gênero. Primeiramente tivemos o ótimo “Quando Eu Era Vivo“, terror psicológico de Marco Dutra, depois o drama adolescente “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e agora, Getúlio, um suspense político pelas mãos de João Jardim. Isto sem dúvida é ótimo para o cinema nacional, um passo à frente na libertação de amarras que se criaram com o tempo.

Aliás, a escolha de abordar a história de Getúlio Vargas se prendendo apenas aos seus últimos dias e com ares de suspense mostrou-se bastante interessante. Possivelmente um drama biográfico que tentasse mostrar toda a história do ex-presidente correria muito mais riscos de não funcionar e tornar-se superficial. A delimitação temporal permitiu ao filme um maior aprofundamento principalmente na trama política que se construiu e também na construção de um Getúlio já cansado pelo tempo.

Um dos melhores trunfos do filme é justamente esse aprofundamento na intimidade do personagem de Getúlio. Tony Ramos transmite o cansaço do personagem em seu corpo e olhares pesados e em seus suspiros, quase sempre captados por closes bastante intimistas do diretor. Além de sua relação com a filha Alzira, em uma ótima atuação de Drica Moraes.

Esta proposta faz lembrar a trilogia do diretor russo Aleksandr Sokurov sobre homens de poder (Moloch, Taurus e O Sol), que acompanha também intimamente os últimos dias de poder de Hitler, Lênin e Hirohito. Porém as comparações não passam disto, afinal João Jardim não consegue atingir o peso dos filmes de Sokurov.

Conhecido por seus documentários (Janela da Alma, Lixo Extraordinário, entre outros), o diretor se arrisca na ficção pela segunda vez, porém parece não conseguir se desvencilhar completamente de alguns vícios de sua linguagem “raíz”, por assim dizer. A trama parece querer mostrar todos os lados e todos os personagens, e é onde se perde, tornando-se confusa e deixando alguns personagens um tanto quanto superficiais. O que mais salta aos olhos nesta tentativa desajeitada de construção de sub-tramas, são as legendas que apresentam determinados personagens, ferramenta bastante utilizada no documentário e aqui usada como uma maneira preguiçosa de adicionar personagens à trama.

O que vemos é uma construção maniqueísta que deixa Getúlio como completamente inocente de todos os fatos apresentados no longa e Carlos Lacerda como um algoz que faz com que todos os fatos apontem contra o presidente. Além de alguns personagens que, durante o filme, vão se deslocando de lado, o que seriam arcos interessantes a serem abordados se não o fossem de forma tão leviana.

A trilha sonora se mostra um elemento interessante do filme, assim como a fotografia sempre ótima de Walter Carvalho. Juntas, estas dão o tom de suspense que o filme pede e, sem dúvida, o engrandecem. O que mostra mais uma evolução que vem se fazendo visível no cinema nacional, que é na parte técnica. Os filmes comerciais não mais se parecem com novelas como há pouco tempo atrás, são filmes de cinema mesmo, com toda sua essência.

Por isso, apesar de eventuais derrapadas, Getúlio soa como uma boa notícia para o cinema nacional que vem amadurecendo cada vez mais.

Assista ao trailer de Getúlio

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