História do Pranto era um daqueles livros que esperam na estante, sem muito destaque, ao lado de tantos outros. Aí, pinta uma folga você olha para a tal estante e vê que esse livro é curtinho, 85 páginas, dá para ler rápido sem ter que parar no meio por conta das atividades diárias.

E você o inicia, sem saber nada a não ser que Alan Pauls é argentino. E ele inicia a narrativa em um prédio em Buenos Aires, descrevendo a tentativa de uma criança em ser o Super-Homem, atravessando a janela do seu apartamento. “A dor é a sua educação. A dor é a sua fé.” E, a partir de então, você é mergulhado num labirinto de memórias, fluidas, confusas, desse menino, criado por pais separados na Argentina dos anos 70, tendo como pano de fundo, a sombria ditadura argentina. Um emaranhado de lembranças, que se misturam, frases que começam com uma lembrança da infância, misturada a uma da idade adulta, fazendo-lhe perder a noção da passagem do tempo e da cronologia das lembranças. E passamos por tudo, os conflitos com a mãe ausente, a incapacidade de sentir, de sofrer, de chorar ao lado do pai, as contradições da sua militância na esquerda, o convívio com militantes anistiados, os medos dos fantasmas da direita. Um grande labirinto, muitas vezes ácido em relação à esquerda argentina, na repulsa à emoção barata; sufocante e angustiante sobre a passagem da sua própria existência.

Até a metade de História do Pranto, você se deixa perder nesse labirinto, ora perdido em acontecimentos políticos, ora em devaneios da infância, misturados à confusões da idade adulta, e quando, você, um pouco cansado disso, chega à metade da narrativa, ela começa a te prender numa sala. Essa sala fica escura e depois, conforme a narrativa prossegue, vai ficando cada vez mais difícil respirar nela. Todas as frases tornam-se atordoantes. Ao final da história, alguém entra na sala e te dá dois socos. Violentos. No rosto. E sai, deixando a porta aberta. Mas você não sai. Você fica, chorando. Sozinho. Num canto. Vazio. Você fecha o livro. E não lê mais nada por dias, ainda marcado pelo que lera de Alan Pauls.

Indico História do Pranto porque é um narrativa vertiginosa às memórias de um garoto preso entre suas conturbadas emoções e à tragédia ideológica de seu país, em um período muito recente, que ainda deixa marcas. Indico História do Pranto porque é uma excelente tentativa de análise da ditadura militar argentina sob um enfoque mais minimalista, mais frio, menos baseado nas emoções, mais baseado em aspectos mínimos do cotidiano. Indico História do Pranto porque definitivamente, Alan Pauls mostra-se muito lúcido e apresenta uma narrativa vigorosa que é capaz de proporcionar uma magnífica leitura e fornece inúmeros subsídios para a discussão e entendimento dos violentos períodos militares latino-americanos.

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