Em meio a tantos grandes nomes como Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer, entre outros da nouvelle vague, Agnès Varda se destaca primeiramente por ser a única diretora mulher do movimento, o que já é algo notável, visto que até os dias de hoje, infelizmente, as mulheres ainda ocupam uma minoria no setor de direção de cinema. Mas não é essa a única coisa a se destacar em Varda. Sua extensa filmografia, bastante equilibrada entre documentários e ficções demonstra toda a personalidade que ela soube propor à sua arte de filmar. Em Cléo das 5 às 7, seu segundo longa ficcional esta personalidade já está bastante clara. Além de diversos elementos presentes em outros filmes da nouvelle vague –  como um retrato quase documental das ruas parisienses com um tom de liberdade que parecia contaminar a cidade naquela época, uma profundidade de campo sempre bem utilizada a favor da mise-en-scene, entre outras propostas de linguagem que efervesciam na época – Agnes construía seu próprio cinema, um cinema que sabia dançar, como podemos observar na montagem em uma das cenas iniciais, quando Cléo desce uma escada e os cortes acompanham a trilha sonora, ou então na bela cena do piano, junto ao seu compositor, onde os movimentos de câmera bailam com a melodia.

A diretora também brinca com a questão das cores quando, no início de Cléo das 5 às 7, uma memorável cena que se passa em uma mesa de tarô se inicia colorida e vai se mesclando ao preto e branco até permanecer assim, como continuará até o final. A própria diretora explica em um dos extras de um dvd que com isto queria mostrar que o tarô, colorido, era ficção e que a realidade era em preto e branco, mais crua.

Outro ponto bastante peculiar de Cléo das 5 às 7 e que diz sobre a personalidade de Agnés, é o curta “Les fiancés du pont Mac Donald”, uma divertida brincadeira interpretada por Godard e Anna Karina, que a diretora insere em seu longa. Um presente a mais durante a sessão.

Mas o que mais impressiona em Cléo das 5 às 7 é a forma com que ele acompanha a personagem durante o período citado no título e como nós acompanhamos com ela suas principais emoções. Cléo é uma cantora pop, linda, e inicia o filme angustiada, pois está a espera do resultado de um exame com possibilidade de que ela tenha câncer. Essa angústia é perfeitamente estampada na tela, tudo que ela faz durante este período é banal, ela não quer saber de nada além do resultado do exame.

Enquanto isso ela passeia por diversos cenários parienses, nos quais muitas vezes somos capazes de ouvir as conversas das pessoas ao redor, como um casal de namorados brigando por exemplo. Passamos inclusive pela casa de Cléo, onde se desenrola uma das melhores cenas do filme, já citada acima, quando ela encontra o compositor de suas músicas e eles fazem alguns números no piano. O olhar de Cléo nesta cena é algo que fica guardado na memória.

Em um dado momento de Cléo das 5 às 7, já envolta na angústia de possibilidade de uma morte próxima, ela se percebe sozinha no meio da multidão. “Eu achava que todo mundo olhava para mim. Só eu olho para mim”. Enquanto isso ela põe sua música em uma jukebox no café e observa a indiferença das pessoas a ela em outra cena memorável.

Por fim, acaba por encontrar um soldado prestes a partir para a guerra, assim como ela, ele também está a pouco tempo de abandonar a vida com que estão acostumados, mas como a vidente diz no início do filme, a carta da morte por vezes significa apenas uma grande virada em sua vida. O soldado olha para ela, não por ela ser uma cantora famosa, mas por ela ser uma pessoa que precisa ser ouvida. Pela primeira vez ela revela seu verdadeiro nome, e provavelmente sua verdadeira persona. E ele a acompanha para buscar o resultado do exame.

Tal sucesso em transmitir todas estas sensações e mudanças na personagem é alcançado com o roteiro, que se desenvolve sutilmente, e a bela atuação de Corinne Marchand.

Cléo das 5 às 7, o filme, termina às 6 e meia, e Cléo fica com mais meia hora para si mesma. Prólogo que a diretora gentilmente doou a nossas imaginações.

Despeço-me deixando com vocês este excêntrico trailer feito para o filme à época.

Assista ao trailer de Cléo das 5 às 7

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