Alemão é um filme que chega um pouco atrasado na onda dos favela-movie. Essa espécie de subgênero que explodiu com Cidade de Deus e que, apesar de inúmeras críticas, parece ter conquistado o espectador brasileiro. Foi o cenário que muitos encontraram para construir suas histórias de mocinho e bandido, e como em um bom western, é também um ambiente propício para por à prova a benevolência dos dois lados. Outra característica é que os filmes passados em favelas contam com pouquíssimo espaço, todo cenário é apertado, forçando assim malabarismos para conseguir boas imagens, o que passa a ser parte da forma dos filmes. E claro, o grande hit do sub-gênero, o linguajar da periferia, que passou a ser usado por alguns jovens de classe média, seja para imitar algum personagem ou apenas para tirar onda.

O filme de José Eduardo Belmonte conta com todas estas características, embora nem todas muito bem trabalhadas. Alemão consegue aproveitar bem o espaço claustrofóbico e sabe ser econômico no roteiro a fim de não ter grandes cenas de ação, provavelmente inviáveis para um filme de orçamento menor. A única grande cena de ação é muito bem filmada e utiliza o espaço apertado a seu favor.

Para outras cenas que exigiriam muito da produção, o diretor se utiliza de imagens de arquivo, uma escolha de linguagem que tem seus prós e contras no filme. Ajuda, sem dúvidas, a localizar o espectador na história proposta, se utilizando de imagens que muitos viram ao vivo em telejornais, porém em alguns momentos deixa confusa a intenção de Alemão que em seu cartaz coloca policiais como heróis (“48H antes da maior operação policial da história, 5 heróis invisíveis lutam para sobreviver”) mas ao fim exibe vídeos das manifestação contra o governador do estado do Rio de Janeiro em passeatas muitas vezes a favor da desmilitarização da polícia.

Essa confusão sobre o que Alemão quer passar é talvez o maior problema dele. Ora parece entrar na discussão sobre a efetividade das UPPs nas favelas, ora tenta colocar a ética dos personagens, policiais e traficantes em jogo, ora tenta construir uma espécie de Cães de Aluguel ou O Engima de Outro Mundo, colocando em uma mesma sala várias pessoas que podem ser culpadas pela situação deles ali. Cada uma destas proposições é desenvolvida de forma extremamente rasa, isso para dizer que são sequer desenvolvidas.

Assim como as proposições, também são rasos os personagens. Pouco sabemos da história de cada um e esse pouco não é o suficiente para se criar qualquer tipo de laço com qualquer um deles, o que deve explicar a apatia da platéia depois da sessão: não importa quem morreu se você não sabe direito se você quer torcer para alguma coisa ali. Isso sem contar nas atuações risíveis, destacando aqui Cauã Raymond, que não convence nada como traficante-mor da favela do Alemão.

A trilha sonora merece um comentário à parte, posto que em muitos momentos ela parece mesmo estar à parte do filme, totalmente deslocada, principalmente a trilha original. Em alguns momentos são utilizados raps de grupos consolidados, Racionais por exemplo, e somente nesses momentos a trilha parece fazer algum sentido, talvez até pela força das próprias músicas em si.

Talvez o maior pecado de Alemão tenha sido não saber para onde atirar, para qual lado se desenvolver como filme, se perdendo em diversos caminhos possíveis que cria para si mesmo. No fim fica a impressão de que poderia ter saído algo melhor dali.

Assista ao trailer de Alemão

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