O Volume 2 de Ninfomaníaca chega aos cinemas nacionais com um alerta. Trata-se de uma versão editada/censurada, capaz de ser exibida para o grande público, apesar de permanecer explícita em determinadas cenas. A segunda parte dá continuidade as descrições de Joe (Charlotte Gainsbourg) ao ainda interessado Seligman (Stellan Skarsgård). O diálogo permanece filosófico e Seligman analisa a história de Joe sob aspectos científicos e religiosos, racionalização também existente no Volume 1.  Porém,  com o desenrolar da trama, ocorre uma das principais revelações do filme e temos a esperada oposição entre personagens antagônicos.

Joe amadurece e assume responsabilidades em um casamento fadado ao fracasso. Sua sexualidade atinge níveis sadomasoquistas e a dor aparece como sua principal pulsão sexual. A procura por novos relacionamentos e  formas de prazer parece algo comum para uma personagem que sofre de distúrbios sexuais, a partir de então Joe encontra K (Jamie Bell), homem que a chicoteia em uma complexa relação entre punição e orgasmo. A personagem de Trier percorre trajetória melancólica e encontramos uma citação direta à outra obra do diretor. Anticristo, Melancolia e Ninfomaníaca parecem formar uma nova trilogia, na qual as relações humanas assumem grande destaque.

Após apresentar a imagem de uma mulher denegrida por suas ações, Trier decide se redimir ao expô-la a um contraponto necessário – Se Joe fosse do gênero masculino sofreria tanto em decorrência de suas opções ou atitudes? Temos uma questão sócio-cultural e, fundamentalmente, de gênero, importante para reflexão de uma obra baseada em um encontro casual. Por vezes percebemos o quão inverossímil é tal encontro e principalmente o diálogo decorrente dele, mesmo que a linguagem cinematográfica permita tamanha coincidência. Por fim, Trier guarda uma surpresa ao espectador, depois de violência simbólica e sexual chegamos às últimas consequências no ato final de Joe e Seligman. Tal desfecho reduziria Ninfomaníaca se não acompanhasse uma situação provocadora, quem antes fora ativo decide pela passividade e vice-versa em outra oposição do roteiro.

Talvez seja hora de Trier se renovar após apresentar três obras com estrutura semelhante. Os capítulos acabaram e o diretor aperfeiçoou muito bem os temas ou mesmo o formato de seus últimos filmes. Ninfomaníaca é outro soco em uma sociedade permeada de desencontros conceituais. Seligman representa a tentativa de racionalização que não consegue se impor frente ao senso comum. A protagonista é reprimida e se reprime, assim como nossa sociedade ao aceitar um filme censurado em sua exibição comercial, sintomas de um grupo prestes a marchar na direção contrária, mesmo que o desejo latente seja o de “evolução”.

Assista ao trailer de Ninfomaníaca: Volume 2

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