Definitivamente estamos na era dos remakes. Há a tal crise dos roteiristas americanos, ou então uma insistência teimosa de produtores em uma fórmula que aparentemente não está rendendo tanto. A discussão que isso gera chega a ser um pouco boba, pois quando pensamos se remakes são necessários, a resposta negativa é quase óbvia se observamos que estes são feitos apenas por uma questão mercadológica, e em raríssimas vezes o remake se sobrepõe ao original, enfatizando assim a teimosia tola de grandes produtoras.

Não parece pouco óbvio o porquê de José Padilha ter sido escolhido para encabeçar um projeto que já há alguns anos não se sabia se iria para frente ou não. O filme tem diversas semelhanças com o universo de Tropa de Elite, desde uma visão geral de um filme que trata da polícia e da segurança com discussões políticas, até mesmo focando em alguns personagens como o próprio Rococop, que como o Capitão Nascimento é uma vítima de um sistema invisível, ou então o personagem de Samuel L. Jackson, âncora de um telejornal reacionário, assim como fez André Mattos no segundo filme da franquia brasileira.

A missão do diretor aqui era trazer algo a mais para o personagem cultuado criado por Paul Verhoeven nos anos 80. Dar uma nova leitura a Robocop, que dialogasse mais com o cenário atual, mesmo com ambos os filmes se passando no futuro. Padilha tem alguns acertos, consegue propor algumas reflexões interessantes, coisa que atualmente não parece ser tão fácil de se fazer no cenário hollywoodiano, resgatando questionamentos “asimovianos” cria um personagem que é parte robô, parte humano, mas que quando em ambiente de combate, é controlado apenas pela parte robô, ainda que o humano por trás pense estar em total controle da situação.

Padilha consegue mostrar a crítica,  já presente na primeira versão, da corrupção dentro da força policial junto ao corporativismo de grandes empresas que vêem na revolução tecnológica da força policial um ótimo cenário para fazer crescer seus lucros. O que o diretor brasileiro não consegue fazer é ter a acidez de Verhoeven, que criou uma Detroit muito mais suja e se apoiou num humor negro oitentista para alcançar o status de cultuado. É o jeito quadrado de se fazer cinema a principal diferença entre as duas versões de Robocop.

A reflexão proposta e citada acima, por exemplo, toma um caminho um tanto quanto didático e fácil ao fazer com que no fim das contas o ser humano tenha mais forças sobre a máquina. Fazendo assim com que Robocop que poderia sugerir uma dialética interessante torne-se então um herói de fácil assimilação e aceitação pelo grande público, além de deixar um belo gancho para uma continuação da franquia, que Padilha já disse, não irá dirigir.

Olhando-se atentamente, o filme da década de 80 só tornou-se o ícone que é hoje por ter sido fruto de seu tempo, onde o “trash” era bem-vindo no cinema, permitindo a diretores como Verhoeven certas particularidades que o concediam personalidade. Sem isso, apoiando-se apenas na história e muitas vezes preferindo a ação do que a reflexão, o Robocop de Padilha torna-se apenas bom, ainda que tenha cenas interessantes como a qual onde um teste entre robôs se dá com a música do Homem de Lata, de O Mágico de Oz,  ao fundo, ou então quando mostra ao personagem o que lhe sobrou do corpo, mas jamais será memorável como o original, assim como a grande maioria dos remakes.

Um adendo final, há de se observar que não é pouco que o diretor tenha conseguido levar consigo Lula Carvalho (cinematógrafo), Daniel Rezende (montador) e Pedro Bromfman (trilha sonora) para construir um ambiente de trabalho que não o fizesse um estranho e assim conseguir impor ao menos parte de suas vontades como diretor.

Assista ao trailer de Robocop

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