Desde seus primeiros curtas, junto a Juliana Rojas, Marco Dutra já brincava com o gênero do terror. Em “Lençol Branco” há a fusão entre o doce e o macabro, em “Um Ramo”, uma experimentação com a estranheza. Em “Trabalhar Cansa”, primeiro longa do diretor, também em parceria com Juliana, um aparente drama familiar vai ganhando tons de suspense ao longo da projeção e surpreende os desavisados com um terror sutil mas bastante eficaz. O diretor é assumidamente fã do gênero, com influências de Stephen King a John Carpenter, e arrisca em Quando Eu Era Vivo, seu primeiro longa solo, uma incursão ainda mais profunda neste segmento, pouco usual no cinema nacional recente, ato de uma coragem necessária, que trouxe à tona uma boa discussão sobre a questão de filmes de gênero no cinema do país.

Quando Eu Era Vivo, como todo boa produção de terror, trabalha com a sinestesia, toda a direção de arte, desde a escolha das locações até a caracterização dos atores, passando por minuciosa escolha de objetos cênicos, remete a um passado recente, uma espécie de visita a casa da avó, onde barulhos e vultos noturnos causavam frio na espinha. Quase é possível sentir o cheiro do apartamento, assim como um clima gélido que parece pairar sobre os cômodos. São nos detalhes, como em uma sutil mudança na iluminação, por exemplo, ou com o uso em alguns momentos de imagens com textura antiga, de vhs, que o suspense e o clima de estranheza e medo, do filme se constrói.

O trabalho do som no filme também é algo louvável, comumente deixado em segundo plano em filmes com orçamentos menores, ele recebe atenção bastante especial em Quando Eu Era Vivo e junto com a ótima trilha musical, composta por Guilherme e Gustavo Garbato, além do próprio diretor, Marco Dutra, são essenciais para construir o clima macabro que o filme alcança, a trilha é daquelas que fica na cabeça, assustadoramente, por alguns dias.

O elenco parece ter sido escolhido a dedo. Marat Descartes já trabalhou anteriormente com o diretor e já não restam dúvidas de suas qualidades como ator, o desenvolvimento de seu personagem é um dos pontos altos de Quando Eu Era Vivo. Antônio Fagundes que há tempos não trabalhava em filmes, encaixa-se perfeitamente no papel de Sênior, a naturalidade de sua atuação transmite a verdade necessária para o personagem. E a tão comentada inclusão de Sandy, que se justificaria apenas pelo timbre de sua voz, que se mostra surpreendentemente macabro na trilha sonora, mas que vai além e apresenta uma atuação segura que não deixa nada a desejar.

Sem apelar em nenhum momento para os grandes sustos, comumente usados de maneira apelativa por alguns filmes do gênero, o diretor instaura o medo de forma bastante sutil em Quando Eu Era Vivo que, impulsionado por uma segunda metade excepcional, perfeitamente orquestrada em ritmo, cenografia, direção de atores e trilha sonora, alcança um clima aterrorizante, deixando o espectador hipnotizado e com a espinha arrepiada.

Segue abaixo a entrevista do diretor Marco Dutra para o Arrotos Culturais:

Você adaptou o livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa” do Lourenço Mutarelli, qual foi o maior desafio que você encontrou em adaptar uma obra dele para o cinema? Como foi para você adaptar um livro dele?

A escrita do roteiro de Quando Eu Era Vivo com a Gabriela Amaral Almeida foi muito desafiadora porque era um livro muito difícil de se adaptar. É um livro muito literário, por assim dizer, a força dele é o uso da linguagem, o uso da palavra, é a forma que ele usa para estruturar o livro, e não exatamente a história. Então nosso desafio foi como a gente ia levar esse tom, essa atmosfera e esses temas complexos do livro pro filme, esse foi o primeiro desafio. E o segundo grande desafio foi que era um filme muito pequeno, de produção muito pequena, a gente tinha 18 dias só para filmar, então foi fazer o filme se ajustar a esse universo de filme compacto, de filme conciso. Eu acho que os dois desafios renderam frutos, vendo o resultado final eu acho que está tudo lá, eu acho que a gente conseguiu superar esses desafios.
Eu conheço a obra do Mutarelli como um todo, o que é interessante porque todas as coisas dele se conectam, os livros se conectam com os quadrinhos, é um universo que ele navega muito próprio. Então eu acho que as outras obras dele estavam na minha cabeça, estavam na minha memória afetiva. Só que eu não voltei pra elas, a gente se dedicou exclusivamente a  esse romance.

Além do livro do Mutarelli, você teve outras referências que você acha que foram fortes para o  filme?

A gente não trabalhou muito com referências, especialmente na fase da adaptação, eu e a Gabriela trabalhamos muito com o livro mesmo. Com o material dos temas, estrutura, personagens do livro. Ao longo do processo de produção de Quando Eu Era Vivo, na conversa com o fotógrafo, com diretora de arte, com os atores, foi aparecendo alguma coisinha aqui, outra ali. Eu acho que das coisas mais fortes que apareceram como material para discussão, foram “Luto e Melancolia” do Freud, e os filmes do Brian de Palma, principalmente “Síndrome de Caim”.

A sensação que Quando Eu Era Vivo me passou foi bastante semelhante com a sensação de estranhamento e medo de quando assisti “O Bebê de Rosemary”, você vê alguma ligação entre os filmes?

Eu gosto muito de “O Bebê de Rosemary”, e do Polanski em geral, principalmente “O Inquilino” que é um filme de apartamento também, que tem muito a ver com a atmosfera do Quando Eu era Vivo, não foi referência direta, mas é um filme que eu gosto muito e que eu acho que se comunica com o Quando Eu era Vivo em alguns pontos. E eu acho que o Polanski tem esse talento de criar esse universo de horror doméstico muito bem, que é o que tem em “O Bebê de Rosemary”. Esse horror de cozinha, banheiro e sala.

Quando Eu Era Vivo continha diversos signos ligados de alguma forma a algum tipo de simbolismo, como o boneco do fofão e a história das cabeças que são levadas para Aparecida. Houve algum tipo de pesquisa especial para isso ou são bagagens que você recolheu durante a vida e aplicou ao  filme?

Eu venho de família religiosa, minha mãe é espírita, eu tenho pessoas da umbanda e do candomblé na minha família, estudei em colégio de padre, então eu tenho um referencial  religioso brasileiro forte. Eu só li um pouquinho para estudar um pouco dos demônios do filme, das maldições do filme. Essa coisa de fazer cabeça, a coisa do voto, é uma coisa que é comum a muitas religiões, isso é uma coisa bonita de descobrir. Inclusive a expressão “fazer a cabeça” vem do candomblé, de um ritual. Não teve nenhuma pesquisa específica, foi uma pesquisa mais de ler um pouco sobre isso, diversas fontes, alguns livros do Mircea Eliade sobre religião, “O Sagrado e o Profano” por exemplo.
E esses objetos dos anos 80, esses objetos da memória, têm a ver com Quando Eu Era Vivo porque ele, o personagem principal, tenta reencenar a infância. Então ele recupera várias dessas imagens que povoam a memória dele.

Sobre o elenco, a maioria nunca havia feito um filme de terror antes, como eles lidaram com o convite? Você acha que houve algum tipo de estranhamento?

Não, acho que eles gostaram, acho que eles embarcaram inclusive por isso. Inclusive por uma vontade de fazer um filme com uma proposta um pouco diferente do que eles estivessem acostumados a ser convidados. E depois, tem uma coisa que é muito legal, que todo mundo gosta de filme de terror, mesmo que seja um prazer meio culpado. Conversando com o Fagundes, com a Sandy, a gente descobriu isso, que eles gostavam pra caramba. Que era um prazer fazer isso. Então uma coisa curiosa em filmar o suspense, o horror, o thriller, é que é muito divertido. Porque você fica consciente dos efeitos que você quer programar pra acontecer no filme, então você tem que calcular com uma precisão meio matemática. No fim você se diverte muito, é muito divertido fazer Quando Eu Era Vivo. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, é legal, é agradável, o sombrio fica no material, mas não na experiência.

Então não rolou nenhuma história macabra no set de Quando Eu Era Vivo?

Não, não, a gente até brincava, que caíam algumas coisas, umas portas se mexiam sozinhas, então falava que era o espírito da Olga, mas era mais brincadeira, porque o clima era agradável, era de diversão. Foi muito bom.

Por último, como você avalia o terror nacional, que já teve Zé do Caixão, Ozualdo Candeias, entre outros, e que hoje em dia tem por exemplo, o Rodrigo Aragão, que faz filmes mais ligados ao trash, o que você acha sobre esse gênero dentro da cinematografia nacional?

Acho que o gênero fantástico, horror, suspense, enfim, vários nomes que você possa dar, ele tem muitas variáveis, não é um tipo de filme só. Eu acho que o que está acontecendo, que é muito legal é que as pessoas estão cada vez mais abraçando ferramentas de gênero pra amarrar as histórias. Isso é legal porque sempre recusamos elas, porque a gente achava que não podíamos ou não sabíamos fazer. E eu acho que é isso que está fora de moda, acho que podemos e devemos fazer o que a gente bem entender, do jeito que quisermos. Desde que seja honesto e que represente a nossa vontade genuína. E eu acho legal o Rodrigo Aragão, o Mojica, o Khouri, que já faleceu, o Petter Baiestorf, vários diretores, o próprio Kleber Mendonça Filho, diretores que estão se relacionando com a ideia de gênero, e que é ótimo isso porque não tem motivo pra gente não fazer isso, não variar a nossa produção.

Assista ao trailer de Quando Eu Era Vivo

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