“- Alguma vez você já desejou uma vida normal?
– Vida normal? Isso existe?”

Quando Matthew McConaughey apareceu como matador de aluguel no ótimo Killer Joe, houve surpresa. Até então pouco conhecido por filmes menores e papéis em alguns seriados, o ator apresentou uma atuação acima da média, chamando para si boa parte da força do filme. Era apenas um cartão de visita, no ano seguinte vieram Obssessão, Magic Mike e Amor Bandido e neste ano uma participação curta mas notável em O Lobo de Wall Street. McConaughey mostrava que não estava de brincadeira, agora é a vez dele. Clube de Compras Dallas veio para consolidar este momento, em um de seus melhores papéis, como o vaqueiro Ron, que já lhe rendeu um Globo de Ouro de melhor ator, e que provavelmente deve seguir caminho similar no Oscar.

Clube de Compras Dallas é acima de tudo um filme sobre a vida, que nos coloca em universo de pessoas vitimas do vírus HIV. É sobre querer viver mais, desfrutar por mais tempo de algo que é difícil de se explicar, ou então sobre adiar o encontro com algo ainda mais inexplicável. É sobre poder sobreviver com o mínimo sofrimento possível, para poder, de fato, viver e tentar descobrir ou desvendar a vida dentro da ampulheta que corre mais rápido agora para eles.

Quando Ron aparece como um cowboy texano, encaixando-se em todos os estereótipos que o papel pede, mulherengo, machão, malandro, doido por dinheiro e por quase tudo que este pode comprar, o que ele não espera é que a vida há de lhe pregar uma peça, que irá lhe colocar em dada posição onde ele terá que aprender sobre si mesmo e sobre os outros, e respeito passará a ser sua palavra de cabeceira, ainda que ele não abandone totalmente seus velhos hábitos nem sua persona de macho alfa.

Junto com o personagem, o espectador também aprende e desconstrói preconceitos. Obviamente que um filme como Clube de Compras Dallas – onde o personagem com todos estes estereótipos passa por um arco narrativo que o deixa mais bonzinho – dificilmente escapa de certos moralismos, apesar do visível esforço para não cair para este lado, é quase inevitável um filme da indústria não ceder às conhecidas regras de mercado que deixam os filmes cada vez mais quadrados. Mas para além de qualquer tipo de apelação, o filme traz sua reflexão implícita, e esta fisga o espectador pelo instinto natural de querer viver, presente em cada um de nós.

No fim das contas é sim um filme lançado para tentar abocanhar o Oscar, como todos os anos temos nesta época do calendário, e que segue uma espécie de cartilha. Mas, o time de atores, que além de um visceral McConaughey, conta também com Jared Leto em ótima personificação de uma transsexual – onde não deixa de ser uma mulher nem mesmo quando se apresenta sem maquiagem –  consegue elevar Clube de Compras Dallas a um nível um pouco mais alto.

Assista ao trailer de Clube de Compras Dallas

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