Utilizar-se de um futuro imaginado para refletir sobre os caminhos do presente é algo relativamente recorrente no cinema e nas artes em geral. Temos as obras de Isaac Asimov e Aldous Huxley na literatura, filmes como 2001 de Kubrick, e até séries de tv como a ótima Black Mirror, que aliás tem um episódio que tem bastante semelhança com a história do filme. O que diferencia Ela da grande maioria destas obras é que ele não busca um futuro tão distante, pois ao olhar para a sociedade de hoje e observar como algumas coisas têm evoluído rapidamente, faz sua metáfora num tempo que parece não estar tão longe assim. Tal opção, seja ela proposital ou não, aproxima o espectador da história e a torna mais palpável, e porque não, assustadora.

Ela nos conta uma história, a de Theodore (Joaquin Phoenix). Recém separado de sua ex-mulher, e ainda deprimido, passa a vida trabalhando, jogando vídeo game e acessando sites pornôs. Até que uma novidade chega ao mercado, um sistema operacional capaz de se adaptar completamente ao usuário, com a habilidade de desenvolver uma personalidade própria e, ao menos mimetizar, sentimentos e emoções. Theodore adquire o novo sistema e acaba se apaixonando por ele, ou por ela no caso, posto que é uma voz feminina e a personalidade que se cria é de uma mulher, a partir das necessidades e vontades dele.

Jonze faz seu próprio futuro, mas já mostrou em filmes anteriores que sabe bem criar uma realidade diferente da que vivemos, mesmo que essa diferença seja sutil. Neste caso, o futuro construído é melancólico, repleto de solitude, com pitadas de algo que lembra Mondrian com suas linhas retas e algumas cores primárias vibrantes aqui ou ali. O visual dá ao filme uma personalidade a mais, é como se quisesse deixar claro que, por mais que trate de um tema frio, ligado à ficção científica e tecnologia, também trata de sensibilidade, e o faz de forma sibilante.

É imprescindível que se fale de Joaquin Phoenix, depois de sua atuação avassaladora em O Mestre, a ansiedade pelo seu próximo trabalho só fez crescer. Injustiçado pelo Oscar no ano passado, foi novamente indicado neste ano. Porém sua atuação neste filme não chega aos pés do que ele conseguiu fazer no filme de Paul Thomas Anderson, o que não quer dizer que não seja uma ótima atuação. Scarlet Johansson, ou na verdade apenas sua voz, apesar de estar presente durante quase toda a projeção, não consegue ser um grande destaque do filme em se tratando de atuação.

A reflexão de Ela faz lembrar, de início, HAL 9000, de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, um dos melhores personagens da história do cinema, e pega carona em algumas ideias propostas por Kubrick já em 1968. Mas a partir de um dado momento Samantha (a persona que o S.O. adquiriu) encontra seu próprio caminho, abrindo espaço para outros questionamentos, principalmente sobre nós, seres humanos e o caminho que estamos traçando, cada vez mais reféns de algumas tecnologias e consequentemente cada vez mais sós.

Por isso, os pensamentos propostos por Jonze podem até ser apenas uma consequência da história que ele queria contar, e não necessariamente um questionamento sobre a humanidade e os caminhos que esta tem tomado, mas não por isso, e nem por tratar tudo com tom de um filme de romance, Ela deixa de ter um lado bastante horripilante, explorado de forma sutil mas consistente ao mesmo tempo.

Assista ao trailer de Ela

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