Sala lotada. Ao som de estalos de pipocas e goles de refrigerantes me perco na primeira cena de Ninfomaníaca: Volume 1, um exercício de concentração impossível à uma plateia curiosa, que desliga celulares e se acomoda na poltrona. Os primeiros sinais de chuva passam despercebidos na sala isolada de uma cidade prestes a alagar. Lars Von Trier quebra o ambiente com os graves metálicos de Führe mich da banda Rammstein enquanto dois personagens, bases da narrativa de Ninfomaníaca: Volume 1, se encontram: Joe (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgård). Desconhecidos, unidos pela compaixão e curiosidade, Seligman encontra a moça na rua e decide ajudá-la, pobre alma abandonada em uma rua européia.

Laço firmado, Joe e Seligman trocam experiências. A medida que a moça lamenta pela própria vida, Seligman se torna um confidente, meio pelo qual o público acompanhará as peripécias sexuais de Joe desde a infância até a juventude. Há certa comicidade em tal diálogo, já que Seligman compara momentos e situações da vida de Joe com suas técnicas de pesca. A conversa de pescador é franca e as descobertas/aventuras de Joe prendem o público. Há certo exagero no didatismo da linguagem apresentada por Trier, que decide por desenhar ao espectador fórmulas no intuito de enfatizar/confirmar a narrativa.

Explorando bem o comportamento de uma ninfomaníaca, Trier bebe na fonte das principais teorias que versam sobre a sexualidade pra construir Joe, personagem fria que reflete sobre a vida sem resistir aos prazeres da carne. A cena em que disputa com a amiga quem consegue transar com mais homens dentro de um trem é interessante se analisarmos o prêmio simbólico, um pacote de chocolates. Tal prêmio serve de consolo e move Joe, mas é apenas um objeto que serve pra desviar qualquer sentimento de culpa da personagem.

Preso na estrutura literária, Trier continua dividindo seus filmes em capítulos, como se convertesse Ninfomaníaca: Volume 1 em um grande livro, no qual o espectador, sem perceber, perde a autonomia de folhear as páginas. A melhor cena do filme é protagonizada por Uma Thurman, a mulher traída que leva os filhos para ver o marido e a amante. A situação constrangedora é aguçada pela chegada de outro homem, amante de Joe. Mas é a personagem de Thurman que dita todo o ritmo da cena, através dos filhos ela expõe novamente a frieza de Joe.

Sem grandes surpresas ou incômodos, Ninfomaníaca: Volume 1 é um dos filmes menos perturbadores de Trier, fato que não o torna desinteressante ou ruim, mas que o deixa abaixo da expectativa inicial, não só pelo exagero da mídia em relação à obra mas, principalmente, a qualidade apresentada em filmes anteriores do diretor. Mas vindo de Lars Von Trier, a grande surpresa deve residir na segunda parte da obra, momento em que deve inverter o jogo entre Joe e Seligman e finalmente surpreender o espectador.

Assista ao trailer de Ninfomaníaca: Volume 1

Anúncios