O texto contém spoilers de Azul é a Cor Mais Quente, ou seja, contém informações que podem estragar algumas surpresas do filme para quem ainda não o assistiu. Se você não assistiu e ainda deseja ler, faça-o por sua conta e risco.

Alguns filmes ficam famosos pelas histórias que acontecem em seus bastidores, uma busca rápida no Google sobre o filme O Que Terá Acontecido a Baby Jane? revelará histórias interessantíssimas sobre uma disputa entre as duas protagonistas do filme. O filme Azul é a Cor Mais Quente também teve seus momentos, revelados em entrevistas após o lançamento. Boa parte se referia à dureza da direção de Abdellatif Kechiche em relação às atrizes. Pode-se ler um resumo dessas histórias no blog de uma amiga, Veneno de Bilheteria. Sem entrar na questão de se os fins justificam os meios, posto que já foram colocados panos quentes no assunto pelos próprios envolvidos, a verdade é que os fins foram, no mínimo, bastante impressionantes.

Baseado em uma HQ homônima da francesa Julie Maroh, o filme nos conta toda a trajetória de uma história de amor focando-se nos sentimentos de uma das envolvidas, a jovem Adèle. Interpretada pela atriz Adèle Exarchopoulos, que além de ter o mesmo nome da personagem que interpreta, parece ter se encaixado perfeitamente com ela, com seus traços de menina-moça, inocente e insegura, ela nos mostra com o olhar cada gota de emoção que a personagem sente, em um trabalho de atuação e direção realmente louvável. Não fosse essa verdade tão real passada pela atriz, não seria o mesmo filme.

Quem divide cena com Exarchopoulos é Léa Seydoux, que, se não consegue alcançar a força de atuação da atriz mais jovem, compensa com sua beleza estonteante, hipnotizando olhares, ainda mais do que quando o fez antes, no filme A Bela Junie, de Christophe Honoré. Apesar de sua atuação não ser tão impactante quando a de Adèle, até por sua personagem, Emma, não ser o centro da história, está longe de deixar a desejar, aparentemente os meses extras de gravação ao menos obtiveram bons resultados.

O fato de Azul é a Cor Mais Quente ter sido gravado em ordem cronológica sem dúvida foi fundamental para consolidar a excelente atuação da protagonista, poucos diretores podem se dar esse direito hoje em dia, Kechiche conquistou-o mostrando em seus filmes anteriores do que era capaz, principalmente os dois últimos, O Segredo do Grão e Vênus Negra, foram grandes cartões de visita de um cineasta que sem dúvida já se consolidou no cenário mundial, ainda mais depois de receber a Palma de Ouro.

Não gosto quando dizem que um filme trata da “temática gay”, não apenas pela cacofonia, mas porque na grande maioria das vezes o filme na verdade trata sobre uma situação de amor ou de desejo, não interessando o gênero dos envolvidos, afinal não é comum ouvir o termo “temática hétero”, por exemplo, quando a história de amor ou desejo é entre um homem e uma mulher. Mas em Azul é a Cor Mais Quente o tema é, no mínimo, tangenciado, quando no primeiro terço do filme são mostradas, de forma bastante delicada, as angústias vividas pela personagem ao se confrontar com sua sexualidade, o que pode explicar a quantidade anormal de casais lésbicos nas sessões deste filme.

Azul é a Cor Mais Quente, mostra-se, sobretudo, um filme sensível que consegue tratar cada um de seus temas com carinho e delicadeza, sem pressa de se alcançar o final, e por isso concretiza-se em um filme de emoções fortes, que vão de momentos deliciosos a momentos extremamente doloridos, na maioria das vezes, é válido enfatizar, apoiado nas atuações sublimes, principalmente de Adèle Exarchopoulos. Kechiche parece ter conseguido o que dizia querer, penetrar na alma das personagens em suas montanhas russas de sentimentos, compartilhando com o espectador que se deixar levar pelo filme, cada uma das emoções vividas no filme, fazendo com que as três horas de duração mal sejam notadas.

Assista ao trailer de Azul é a Cor Mais Quente

Anúncios