Alguns filmes já nascem clássicos, seja por seu diretor, seja pelas histórias de seus bastidores, ou até mesmo por uma boa publicidade feita antes de seu lançamento. Outros têm carreira menos gloriosa, a grande maioria é claro, mas há sempre alguns destes que surgem vagarosamente e vão ganhando força com o passar do tempo até se tornarem, não necessariamente clássicos, mas no mínimo um filme bastante esperado e comentado. É o caso de Um Estranho no Lago, do francês Alain Guiraudie, o diretor já havia ganho alguns prêmios com seus filmes anteriores mas ainda não havia firmado seu nome no cenário mundial. A estreia do fime em Cannes deu início aos burburinhos, um filme que se passa em um lago naturista frequentado por homens homossexuais e ainda com cenas de sexo explícito. Logo depois veio a premiação, não só venceu a Queer Palm, de melhor filme com temática gay, como também o prêmio Un Certain Regard, dado à diretores revelação no festival. Enquanto isso aumentavam os comentários sobre o filme, aparentemente agradando a maioria da crítica. Até que por fim o filme aparece no topo da lista da renomada Cahiers du Cinema. Está consolidado, se você é cinéfilo, precisa assistir este filme ou então ficará por fora das rodas de conversa durante um tempo.

Bem, um filme não costuma conquistar tudo isso a toa. A começar pela ousadia do diretor em fazer um filme com tal temática, um ato político nos tempos em que vivemos, ainda mais da forma com que o faz. Guiraudie arrisca-se ao construir a narrativa do filme, há sempre o risco de se passar do ponto quando se propõe a fazer algo explícito. Porém além da coragem, o diretor soube desenvolver muito bem o desenrolar da trama, fazendo com que os planos, que fora de contexto poderiam parecer obscenos para alguns, ganhassem significado e razão de existir na película, que transborda desejo por todos os seus poros. Sem dúvida que não é tarefa simples, ainda mais em tempos ainda moralistas. Créditos para ele.

O filme dá seu cartão de visita logo de início. Uma cena simples, que se inicia com um plano que posteriormente irá se tornar uma das chaves do filme, e termina com um diálogo quase banal. E com essa singeleza, delicadamente o diretor nos apresenta ao lago, que é quase um personagem do filme, cúmplice maior da história que nos é apresentada, uma crônica sobre os limites da gana e da volúpia. Aos poucos vamos conhecendo alguns personagens, frequentadores do lago, e vamos nos sentindo bem-vindos naquele cenário aconchegante. Apesar dos ótimos diálogos, são com planos silenciosos que são apresentados os detalhes que dão volume ao filme, a câmera mostra o que o diretor quer que o espectador veja, e essa construção visual adiciona uma bela pitada de charme que, além de tudo, prende ainda mais a atenção de quem assiste.

Ao final do filme, surge uma questão, quem seria o tal “Estranho no Lago” que o título discrimina? Cada um dos personagens tem seus motivos para segurar tal alcunha. Alcunha esta, aliás que já no título, primeira conversa entre filme e espectador, já adiciona certo tom de mistério que impregna o filme em sua segunda metade, conduzindo a um final de se prender a respiração. Tal brincadeira com o significado do nome do filme fica como a cereja do bolo de um filme que nem sempre pretende mostrar tudo explicitamente, e sabe fazer as escolhas muito bem.

Assista ao trailer de Um Estranho no Lago

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