O primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro, principal prêmio do Festival de Veneza, é antes de tudo um recorte de uma região periférica de Roma, local onde cada personagem carrega em si o cotidiano de uma das mais belas cidades do mundo. Porém, aqui, a luxuosa Roma fica de lado, para que o dia a dia floresça. No transcorrer da obra percebemos que não há qualquer ligação entre os personagens apresentados, além do fato dos mesmos viverem à margem de um grande anel rodoviário que contorna a cidade. Homens e mulheres de níveis sócio-econômicos distintos montam um mosaico de uma região em crise. Sacro Gra se vale dessa montagem interessante à curiosidade humana, a realidade agitada de um paramédico é tão envolvente quanto à rotina monótona de um botânico que tenta preservar um conjunto de palmeiras.

O documentário é sutil, os personagens não interagem diretamente com a câmera, como se filmados em seu cotidiano, conversam entre si. Mesmo quando sozinhos parecem falar consigo mesmos, fato que confere um ar ficcional ao documentário. Há muitos momentos de silêncio, pausas reflexivas necessárias ao ritmo do filme. Há também o deslocamento na rodovia, como em uma transição entre os diversos personagens. Talvez um dos mais interessantes seja o de um nobre piemontês, membro de uma elite falida que tenta preservar seu requinte de forma cafona, seu ambiente é eclético reunindo decorações que não dialogam entre si, como uma banheira rodeada de  estátuas clássicas e um felino. Essa falta de diálogo do ambiente é a mesma de seu personagem, isolado na própria ilusão de nobreza.

Sacro Gra, apresenta o lado B de Roma e sua pobreza, a prostituição beira a rodovia em bares. Outra cena interessante destaca duas dançarinas sobre o balcão de um bar. O espaço apertado é dividido pelas duas que tentam atrair clientes para o local, em sua maioria homens jovens que observam tudo sem muito interesse. Outras, mais velhas reclamam da postura da policia. As conversas continuam entre um italiano e sua esposa ucraniana e em outro apartamento o pai e uma filha divergem. Passeamos pela região observando como voyeurs, a espreita de que algo novo aconteça, ou que ao menos certa beleza apareça.

É difícil definir o motivo de tal documentário ter ganho um Festival como Veneza, talvez sua despretensão em registrar a realidade e a forma sutil com a qual nos posiciona frente às pessoas comuns sejam pontos fortes. Vale lembrar que Sacro Gra poderia ter sido filmado no Rodoanel de São Paulo ou de qualquer parte do mundo. O destaque serve para alertar sobre o interesse pelo real, principalmente quando somos bombardeados cada vez mais por roteiros fracos com histórias repetidas à exaustão. Ah que saudade do neorealismo italiano, mesmo que essa realidade não passe de uma grande farsa cotidiana.

Assista ao trailer de Sacro Gra

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