Certa vez a Globo exibiu a minissérie o “Auto da Compadecida”, sucesso estrondoso na época. Tão grande que resolveram se aproveitar disso e transformar a minissérie em filme, com sucesso bastante volumoso também. Pouco mais de uma década depois, a emissora começou a fazer o caminho inverso. “Xingu” e “Gonzaga” foram os primeiros desta nova época. Filmes lançados antes no cinema, mas já filmados sabendo que seriam exibidos posteriormente como minisséries na televisão, com cenas extras e tudo mais. Um caminho mais inteligente do que o feito com o primeiro exemplo citado, afinal para quem já viu a história completa, ver ela picotada depois é muito menos interessante, porém é um caminho perigoso para o cinema, que é feito pré-formatado para ser exibido em outro meio de comunicação depois, que usa linguagem totalmente diferente para se relacionar com seus espectadores. “Serra Pelada” é o mais novo desses projetos da Globo, em cartaz há algumas semanas, deve aparecer na tela da emissora no primeiro semestre de 2014, e é também refém disso, como filme.

O projeto de Heitor Dhalia é ao mesmo tempo ousado e oportunista. Excluindo alguns poucos documentários pouco conhecidos, ninguém até então havia tentado trazer as paisagens da corrida do ouro de Serra Pelada para a tela. Muito provavelmente por conta das enormes dificuldades em se fazer isso, as quais o diretor contornou com uso de computação gráfica e mais de 2 mil figurantes. O resultado de fato impressiona. As imagens são espetaculares, o formigueiros humano preenche a tela do cinema e faz lembrar as famosas fotos de Sebastião Salgado. Aliás, a parte visual do filme em geral é muito boa, não apenas as cenas dos barrancos. A direção de arte, de fotografia e a escolha dos planos foram bastante felizes e fizeram coisa de cinema de primeira qualidade mesmo. O que atrapalha, e bastante, é o roteiro e a montagem do filme.

Contando com atores de primeiro escalão, “Serra Pelada” apresenta personagens bastante interessantes, a dupla principal vai muito bem, mas o destaque fica para Lindo Rico, interpretado por Wagner Moura, e Tereza, de Sophie Charlotte. Uma pena que eles sejam pouquíssimos aproveitados por um roteiro que exagera no didatismo. Parece haver uma tentativa de Dhalia de emular uma narração que já foi bem utilizada em filmes nacionais como Cidade de Deus e Tropa de Elite, ou seja, viraram sinônimo de bons resultados em filmes nacionais, porém sem a mesma eficiência. A narração em off é uma ferramenta da linguagem, se não é bem utilizada torna-se apenas uma vitrine da insegurança do diretor, que não acredita conseguir contar sua história sem esse artifício. Ou então, voltando ao tema abordado pelo primeiro parágrafo, é parte da dependência do filme com sua proposta de ser televisionado depois. Em ambos os casos, é o filme quem perde. Um filme que promete bastante, mas acaba não chegando nem perto de cumprir.

Heitor Dhalia já demonstrou que evoluiu como diretor, chegando inclusive a ser chamado para dirigir um filme nos EUA, porém a versatilidade em sua obra tem se mostrado, na verdade, falta de personalidade, ou então uma entrega, cada vez maior, aos mandos das produtoras. E assim o cinema acaba se perdendo por trás das concessões, e um diretor que prometia com seu início bastante autoral em “Nina” e “O Cheiro do Ralo”, mostra-se cada vez mais apenas um peão da indústria. Infelizmente nem só de técnica se faz um filme.

Assista ao trailer de Serra Pelada

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