Há quem diga que a linguagem do cinema está morta. Para Júlio Bressane ela está somente desaparecida; perdeu-se pela história e aguarda ser resgatada. Gosto sempre de citar Tarkovski quando justifica o uso de quadros renascentistas e música clássica em seus filmes dizendo que o cinema é uma arte que ainda engatinha perto das outras, pouco mais de cem anos de existência comparados com milhares de anos de evolução da pintura e do teatro. É essa linguagem desaparecida que Bressane tenta resgatar,em um esforço para dar continuidade à sua evolução.

Logo de início fica claro que não estamos à frente de um filme qualquer; a direção tem personalidade forte e não se esconde de mostrar isso. O começo do filme faz estranhar mas, permitindo-se, o espectador acaba adentrando ao clima onírico que se cria da relação afetuosa entre um aluno que não pisca e ouve silenciosamente os ensinamentos de sua amada professora, cheia de si e de conhecimento, no que parece ser uma visão perfeccionista e apaixonada dela aos olhos dele. Relação esta inspirada na mitologia grega, em história explicitada no filme.

Depois de longas lições que acompanhamos com semelhante atenção, há uma sutil quebra do clima quando uma nova personagem entra em tela. Talvez uma dica de que agora estamos enxergando o filme por outros olhos. A formalidade, porém, permanece em cena, do início ao fim do filme, uma formalidade visual e oral, que se distancia do realismo propositalmente. Uma espécie de provocação do autor que faz questão de que o cinema seja visto como uma obra de arte e não uma mera imitação da vida.

Pensamento este que fica claro com as imagens finais do filme, que trazem o espectador de volta à realidade. Imagens estas que pecam um pouco por sua longa duração, que incomodam. Talvez sendo outra das provocações do diretor.

É justamente por todo esse complexo caminho, aqui resumido de forma bastante compacta, por essas provocações e incitações ao espectador para que este se esforce para interpretar o filme e vivê-lo como experiência, que este é um dos filmes mais interessantes da Mostra deste ano.

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