O Crítico (El Crítico), Hernán Guerschuny, 2013 – A safra argentina de bons filmes despretensiosos agora apresenta uma divertida comédia romântica que brinca com a metalinguagem.
Tellez é um crítico de cinema, com todos os estereótipos que pairam sobre esta classe, sempre arrogante e diminuidor de pessoas que pensem diferente dele, e claro, odeia comédias românticas. Porém, de repente, se vê inserido ele mesmo em uma dessas. A ironia da situação provoca risos sinceros da platéia e o filme consegue brincar muito bem com os clichês do gênero e a conversa com ele mesmo.
Assim como em Medianeiras e Um Conto Chinês, El Crítico é um filme simples, ótimo para se ver num domingo a tarde, mas acima da média de outros filmes do gênero. Os argentinos parecem ter achado a fórmula para um bom cinema comercial, que não desrespeita o espectador e agrada todo tipo de público.

Wajma (Wajma), Barmak Akram, 2013 – Este é o primeiro longa metragem dirigido por uma mulher na Arábia Saudita e deixa claro o quanto era urgente queas mulheres tivessem voz no país.
O filme conta a história de Wajma, uma garota que fez sexo antes do casamento e engravidou, mostrando todas as consequências deste ato em um país com tradicionalismos ultrapassados e extremamente machista.
A história é contada de maneira simples e linear, porém é possível notar a mão da diretora em cenas fortes, como quando há ênfase nas violências sofridas por mulheres, e cenas sutis, quando com os olhares as mulheres mostram cumplicidade entre si pelas injustiças sofridas.
O filme expõe as leis extremistas e ultapassadas que colaboram para o pensamento arcaico de um povo preso no tempo. Um grito de socorro, pesado e triste.

Child’s Pose (Pozitia Copilului), Calin Peter Netzer, 2012 – Já virou regra. Filme da Romênia nos últimos anos é quase sempre garantia de uma boa sessão. Vindo com o selo de vencedor do Urso de Ouro em Berlin, este também prometia o mesmo. E cumpre.
O mais interessante da nova safra de filmes romenos é a capacidade deles de criarem uma situação conflito de histórias bastante peculiares, o clichê passa longe do cinema de lá. Em Child’s Pose (que deve ter título nacional “Amor Maternal”), um homem atropela uma criança e sua mãe entra em cena para fazer de tudo para que ele se livre da pena.
O diretor utiliza-se deste plot para adentrar profundamente na mente da mãe deste homem. Com uma câmera na mão que passa nervosísmo e ansiedade a todo momento, e sem dúvida que incomoda, vai aos poucos lapidando uma das personagens mais fortes do ano.
Com personagens cheios de defeito e diálogos excepcionais, o filme faz uma reflexão sobre até onde o amor materno pode ir. Um dos melhores filmes da Mostra SP de 2013.

Um Toque de Pecado (Tian Zhu Ding), Jia Zhangke 2013 – Inspirado por histórias reais de uma China contemporânea extremamente violenta e fazendo um trocadilho com um clássico de King Hu, “A Touch of Zen”, Jia Zhangke coloca uma lupa sobre a sociedade chinesa para tentar entender as motivações de um momento onde a vida no país parece estar cada vez mais banalizada.
O diretor não tem medo algum de exagerar nas cenas de violência, fazendo-as estilizadas e bastante chocantes, lembrando alguns diretores coreanos contemporâneos, parece tentar promover uma reflexão através do choque com uma realidade aumentada.
Algumas cenas são ótimas, há também personagens memoráveis, porém o filme falha quando tenta cruzar as histórias entre si, sem sucesso. E também na duração do filme, que vai caindo de rendimento aos poucos e chega ao final quase se arrastando.

Centro Histórico (Centro Histórico), Aki Kaurismaki, Pedro Costa, Victor Erice, Manoel de Oliveira, 2012 – O filme é dividido em quatro curtas, a idéia era homenagear a cidade de Guimarães em Portugal, recentemente escolhida como capital cultural da Europa.
Primeiramente temos o curta de Aki Kaurismaki que consegue encontrar na cidade de Guimarães um cenário que casa com seu estilo peculiar de fazer cinema, assim como a trilha sonora, composta de fados portugueses que ressoam a melancolia de seu personagem principal. Uma história simples mas bem executada.
Já Pedro Costa, autor do segundo curta, é o mais ousado entre os quatro. Apresentando um curta onde o personagem principal Ventura, mesmo personagem de outro filme seu, “Juventude em Marcha”, está em um elevador com um soldado dourado. Aos poucos percebemos que se trata de uma espécie de purgatório e faz referência à Revolução dos Cravos, popularmente conhecida em Portugal como “25 de Abril”, quando foi posto fim a um regime ditatorial de mais de cinquenta anos. A atuação de Ventura é de se abrir a boca, porém a falta de bagagem histórica deve atrapalhar a grande maioria dos espectadores.
Victor Erice nos traz um documentário aos moldes de “Jogo de Cena”, de Coutinho, alguns atores contam-nos histórias, como se fossem eles mesmos os personagens, de uma famosa fábrica de tecidos, uma das mais importantes da história do país. O filme funciona bem, porém se perde na duração, sendo o mais longo dos curtas.
Ao fim temos um jovial Manoel de Oliveira que faz uma anedota com o óbvio. Ele filma uma excursão turística ao próprio Centro Histórico de Guimarães, finalizando com um sagaz jogo de palavras ao final. Simples e divertido.

E agora? Lembra-me. (E Agora? Lembra-me.), Joaquim Pinto, 2013 – O que fazer quando sabe-se que a morte se aproxima? O que pensar, o que sentir? Joaquim Pinto é portador do vírus HIV e de hepatite C há 20 anos e neste filme-diário, revela suas intimidades, da rotina ao sentimento, numa jornada triste, sem forças para desesperar-se.
Após se apresentar e a sua doença, Joaquim passa a compartilhar com o espectador sua vida. Percebemos que vive triste, tendo poucos momentos de alegria, com seus cachorros, amigos e seu companheiro Nuno, com o qual protagoniza uma cena de sexo bela e triste. É possível notar um homem reflexivo, que passa a observar as pequenas coisas da natureza para tentar entender o mundo, achar um sentido ou uma explicação para aquilo, em uma reflexão sem fim e sem respostas concretas.
O documentário prossegue e passa a apresentar tom de epitáfio, não há outro caminho a seguir. E dividimos com ele o sentimento de impotência.
O filme poderia ter sido mais curto, suas quase três horas são bastante cansativas, porém talvez Joaquim Pinto tenha ainda tanta coisa por dizer, que se achou no direito de não conter seus pensamentos nesta obra tão pessoal, e sem dúvida ele tinha todo o direito.

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