Plano Para a Paz (Plot for Peace), Carlos Agulló, Mandy Jacobson, 2013 – O documentário traça os bastidores de um dos maiores acontecimentos políticos da história recente, o fim do Apartheid. Contando com depoimentos de personagens essenciais para o desenrolar da história, o filme faz um paralelo entre as manobras políticas e um jogo de cartas, onde o jogador tem que chegar a um objetivo não com todas as cartas do jogo, mas apenas as disponíveis em sua mão.
Os diretores não se arriscam na linguagem, preferindo um formato clássico de documentário com depoimento ilustrado com imagens de arquivo. Porém o tema é muitíssimo bem explorado e as imagens de arquivo contam histórias por si só. Prato cheio para quem gosta de documentários históricos.

Um Dia Na Vida (Um Dia na Vida), Eduardo Coutinho, 2010 – Eduardo Coutinho nos coloca como críticos de nós mesmo. Sendo a tv uma das principais educadoras de uma nação, percebemos que passamos parte de nossas vidas reféns de uma máquina extremamente perigosa e, sem dúvida nenhuma, danosa a nós mesmos.
O documentário acompanha um dia da tv brasileira, zapeando entre diversos canais da tv aberta desde bem cedo até o começo da madrugada do dia seguinte.
Coutinho seleciona minuciosamente trechos que trazem reflexões sobre o que o povo brasileiro assiste na tv e o espectador do filme muitas vezes é surpreendido por olhar programas que considerava “melhorzinhos” com um olhar crítico, no meio de outras tantas bizarrices que são metralhadas pelo televisor,  e dividir sentimentos de riso e preocupação.
Desde incitações ao ódio em programas policiais, passando por propagandas infantis altamente apelativas, vamos descobrindo as facetas ímplicitas da programação que coutinho explicita aos nossos olhos. A mulher parece ser tratada sem a dignidade que merece na grande maioria dos programas, desde aparecerem semi-nuas em manguezais (!) até quadros de embelezamento, onde se enfantiza o quão feia a mulher é antes da transformação.
Ao final a impressão que fica é que apenas a inocência do seriado Chaves é sincera com os telespectadores e apesar de uma sessão onde o riso do ridículo é constante do início ao fim, fica a sensação de termos acabado de assistir um filme de terror.
Uma reflexão obrigatória para os brasileiros de modo geral. É uma grande pena que o filme tenha tantas limitações para ser exibido.
ps: O filme casou perfeitamente com o curta “Porrada” de Coutinho, que está sendo exibido antes de todos os filmes do diretor na Mostra.

Tatuagem (Tatuagem), Hilton Lacerda, 2013 – Depois de escrever importantes roteiros para o cinema nacional, principalmente Pernambucano, e de estrear na direção com um documentário, Hilton Lacerda finalmente tem sua esperada estreia na direção. Dando continuidade ao tom provocativo que colocava nos roteiros de filmes de Cláudio Assis, Hilton tem agora a possibilidade de dar ele mesmo cara aos seus pensamentos. Acompanhando um grupo de teatro transgressor da Recife dos anos 70, uma espécie de Dzi Croquettes mais pobre e ousada, o diretor impõe personalidade ao longa como quem domina uma arte há tempos.
O filme dialoga com o roteiro anterior de Hilton, Febre do Rato, pelo sentimento de desejo de liberdade, porém encontra plano de fundo melhor condizente com si mesmo nos anos 70.
Irandhir Santos, um dos principais atores do cinema nacional nos últimos anos, aparece novamente ótimo, no papel de Clécio, porém quem realmente rouba a cena é o garoto Jesuíta Barbosa, no papel de Fininha, com uma atuação forte e dividindo com Irandhir belas cenas de amor. O personagem secundário Paulete é outro que chama bastante atenção e apesar de ter sido menos aproveitado do que merecia, protagoniza uma das cenas mais sinceras do filme, em uma discussão com Clécio.
Com uma química incrível entre roteiro, atuações, trilha sonora e visual, o filme coloca o espectador no clima da época sem forçação de barra. O filme entra em cartaz em 15/11 e deve deixar a trilha sonora na cabeça de muita gente.

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