Em setembro a Cinemateca Brasileira lançou junto ao segundo número da Revista da Cinemateca Brasileira, uma edição em dvd da última restauração do filme Limite de Mário Peixoto comandada por Saulo Pereira de Mello. A restauração é um ato louvável para um filme que já foi considerado por muitos o melhor filme da história da cinematografia brasileira, além de ter tido por muitos anos, entre as décadas de 50 e 70, a alcunha de filme lendário, posto que na época era impossível encontrar cópia do filme. O dvd é um presente que a cinemateca dá aos amantes do cinema nacional.

Assistindo ao clássico ficam bastante claras as razões pelas quais este filme cravou seu nome na história. Única obra de Mário Peixoto, filmada quando este tinha apenas 22 anos de idade, “Limite” se utiliza de técnicas da recém consagrada montagem soviética somada a planos, ângulos e movimentos de câmera extremamente peculiares e ousados para construir sua angustiante narrativa.

O argumento escrito por Peixoto fora oferecido para Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga, dois grandes cineastas da época, que o aconselharam a fazer o filme ele mesmo e lhe indicaram Edgar Brazil, cameraman nascido na Alemanha, que foi um dos principais responsáveis pela realização de Limite, tendo ele construído os equipamentos que possibilitaram os elaborados movimentos de câmera que Peixoto propusera e que surpreendem por terem sido feitos muitas décadas antes da invenção da steady-cam.

A linguagem do filme é bastante difícil para a maioria dos espectadores de hoje, reféns de um cenário audiovisual que pouco espaço deixa para se construir uma interpretação das imagens por elas mesmas, constrói-se quase todo apenas imageticamente, apoiando-se pouquíssimo em intertítulos. Chamado por seu restaurador de “filme-poema”, Limite apresenta diversos signos, desde a famosa imagem da mulher envolta com braços algemados, incluindo várias imagens de cercas, além do barco, onde boa parte do filme se passa, que flutua sozinho em um oceano de horizontes infinitos, que convergem para a imagem da angústia do ser humano, preso em seus próprios limites e incapaz de superar a infinitude da natureza.

Por toda essa singularidade linguística adotada por Peixoto, além de todas as histórias e lendas que emanam do filme e de seus bastidores com o passar dos anos, “Limite” torna-se obrigatório para qualquer cinéfilo, um filme para ser visto, revisto e estudado em seus mínimos detalhes tão cheios de significados.

Assista Limite

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