Uma das coisas mais interessantes em festivais, e muitas vezes pouco aproveitadas, são as retrospectivas. Nelas temos a chance de ver na telona filmes raríssimos de alguns diretores que nem mesmo foram lançados em dvd no país.

O Festival do Rio deste ano traz a Mostra “Ulrike Ottinger: A Prática da Invenção”, com cinco filmes da diretora alemã, sendo dois documentários recentes e três ficções dos anos 80. Nenhum desses filmes teve lançamento comercial no país e até mesmo aqueles que garimpam a internet em busca de filmes têm dificuldade em encontrar estes com uma qualidade digna. Essa raridade por si só, somada à oportunidade de ver algo que pouquíssimos puderam assistir, já faz desta Mostra algo imperdível no Festival deste ano.

“Freak Orlando” é uma dessas pérolas, uma versão extravagante e surrealista do romance “Orlando” de Virgínia Woolf, onde o protagonista, Orlando, certo dia acorda transformado em mulher e percorre, durante seus 350 anos, a história e as transformações da Inglaterra. Na versão de Ulrike, temos um “pequeno teatro do mundo”, dividido em cinco atos,  que percorre a história do mundo incluindo os erros, as incompetências, a sede pelo poder, o medo, a loucura e a crueldade.

A linguagem utilizada lembra muito os filmes de Alejandro Jodorowsky, até mesmo um pouco de Sergei Paradjanov na estética excêntrica e carnavalesca que se mistura muito à linguagem teatral até mesmo na constituição de sua mise-en-scène, porém com menos recursos, tornando-se em certos momentos “tosca”, mas não como característica ruim e sim algo a mais que se incorpora e torna-se parte do estilo.

Toda a excentricidade de Ottinger em cima da obra de Woolf acentua a discussão sobre gêneros, quando Ottinger coloca todas as principais personagens sendo mulheres, até mesmo um romance lésbico faz parte do filme. Isso feito por uma diretora na Alemanha de 1981. Sem dúvidas deveras corajoso.

Outros filmes da diretora no festival são: “Retrato de uma bêbada. Caminho sem volta” (ficção, 1979), “O retrato de Dorian Gray na imprensa marrom” (ficção, 1984), “O baú do casamento coreano” (documentário, 2008) e “Sob a Neve” (documentário, 2011). A diretora terá uma retrospectiva em Porto Alegre-RS de 10 a 17 de Outubro, com os mesmos filmes que estão no Rio, além de mais duas outras ficções e um documentário sobre a diretora.

Assista ao Trailer de Freak Orlando

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