Quando se estreita a densa camada estilística do filme psicodélico de Korine, quando se dissipa um pouco o nevoeiro das cores, da edição desorientadora, abre-se um vislumbre mais claro sobre a jornada daquelas garotas de biquíni. É claro, superficialmente, subentende-se a conexão estreita entre uma realidade objetiva de uma geração que essencialmente originou as imagens das elipses sinérgicas de uma lascívia entorpecente e tangível. Mas o filme, e Korine vão além de uma simples trip pelo universo embriagante e impulsivo dessa juventude. Eles vão numa corrente quase analítico-expositiva dos anseios menores e propulsores da estrutura libertina daquele (ou desse) mundo.

Em Spring Breakers, quatro jovens estudantes decidem sair de férias. Sem dinheiro ou tempo para juntá-lo, elas resolvem a situação com um assalto a um restaurante. Já no litoral americano, elas dão sequência á sua jornada de inconsequências com grandes festas juvenis e drogas. Em meio ao frenesi coletivo das férias o quarteto acaba indo parar na cadeia. Presas e sem dinheiro, elas são “resgatadas” por um gangster local que só tornará suas férias ainda mais intensas.

De certa maneira, Spring Breakers se relaciona com Pain & Gain, o texto anterior deste blogueiro e o último filme de Michael Bay. Como os marombeiros do filme de Bay, as protagonistas são tanto mundanas e manobráveis como qualquer indivíduo inserido num contexto sócio-economico de liberalismo o é potencialmente. Nos dois filmes há uma certa presença, em diferentes tons e intensidades, de uma consciência de que o American Dream é uma espécie de ventríloquo e coloca seus títeres no frenesi social de uma jornada éticamente repulsiva, mas amparada numa espécie de ideário virtual da busca por excessos. Em Spring Breakers as garotas repetem como num delírio, o mantra de “férias para sempre”; versam sobre uma incessante e quase inevitável busca por felicidade, identidade. Necessidades forjadas que urgem e morrem em impulsos.

Em Trash Humpers, Harmony Korine já deu uma ou outra sapateada no calejado teto de vidro do american dream. Mas aqui há uma trilha acompanhada de perto pela busca obsedada pelo supremo prazer, pela extrema curtição, a obra prima do idílio quase religioso ao capitalismo que são as férias. Como a crença religiosa no mantra próprio dos marombados de Pain & Gain sobre o fitness, as personagens de Spring Breakers acreditam em férias, em férias eternas. Em um interim infinito de estagnação no interstício da juventude e do prazer total. Sem direcionamento, sem acusação, temos apenas um olhar. Um olhar pra um horizonte tão próximo. E seus contornos são espantosos, confusos, ainda que no fundo a gente já conheça esse esboço.

Spring Breakers pode ser até considerado como uma leitura social acurada. Mas sua grande identidade é construída em torno de um cinema delirante, confuso, uma grande sinestesia imagética de emblemas jovens. Você não precisa estar inserido naquela realidade pra partilhar as sensações que permeiam cada passo dado mais afundo na saga das drogas, de ressonância sexual cíclica, e a incessante busca de mais prazer. A câmera fica na maior parte do tempo muito perto dos personagens. Desliza pelos seus corpos, desvela suas expressões, seus olhares mais vagos. Mas como não pode deixar de ser, a linguagem busca a modernidade. Um hibridismo videocliptico de filtros, de montagem, de efeitos, de slow motion regado a dubstep, algumas lembranças de Enter The Void, dentre outros artifícios, ou talvez instrumentos, que se inserem entre cenas mais regulares, por assim dizer.

Todo esse caos narrativo conduz à sensação de desconforto, desorientação, desilusão e até solidão. A miscelânea audiovisual de Korine tem o ritmo, a forma e o conteúdo de um elaborado olhar para essa juventude. Como na já icônica cena da gangue das garotas barbarizando com vários crimes ao som de uma das melodias mais suaves de Britney Spears – uma das melhores sínteses, no próprio filme, pra toda sua aura. Mas este não é um filme adolescente sobre deslocamento social e solidão, pode até ser sobre amadurecimento, – sobreviver áquelas férias transformou particularmente cada uma das garotas, afinal – mas não é como num filme de Mottola, ou Van Sant, não é também um Dazed and Confused, e nem é um meio termo entre eles, é uma espécie de versão extrema. O cume megalomaníaco da esteira ligada nos filmes beach party, de todas as ondas contraculturais de caráter jovem das ultimas décadas e as suas transições, dos anseios libertários. Spring Breakers é um olhar pra como todo esse excesso de liberdade, essa incessante busca por mais e mais liberações findou num pesadelo exótico e alucinógeno. É uma composição meio expressionista, meio psicodélica, visceral e estonteante sobre a pós-modernidade(?) de todo esse nicho.

Assita ao trailer de Spring Breakers

Anúncios