ATENÇÃO: Este texto pode conter spoilers.

Em 1965, os militares tomam o governo da Indonésia. Calcula-se que perto de 2 milhões de pessoas ditas “comunistas”, termo que abrangia erroneamente qualquer pessoa que fosse contra o governo militar, engajada em algum movimento social ou até mesmo imigrantes chineses, foram mortas.  Os militares contaram com a ajuda da Juventude Pancasila, grupo político paramilitar formado principalmente por jovens e gângsters locais. E é sobre Anwar Congo, um desses gângsters, e alguns de seus comparsas que o documentário se apoia, numa tentativa de desvendar o que se passava pelas mentes de pessoas que tiraram a vida de milhares de outras.

Numa conversa que precede o filme, Anwar e seus comparsas contam com orgulho aos diretores sobre as matanças que fizeram. O fato de estarem sempre ao lado dos vencedores da história fez com que eles nunca fossem questionados sobre seus atos e que se sentissem quase como heróis por tudo que fizeram, induzidos pelas propagandas militares da época e um pensamento direitista que se perpetuou no país. É proposto a eles então que reencenem vários assassinatos que cometeram, como se fosse um filme de verdade.

O diretor aproveita-se de uma surpreendente inocência, quase infantil, dos capangas para que eles participem da experiência. Eles chegam inclusive a acreditar que aquilo era algo necessário, que as pessoas deveriam assistir aquilo, ver como as coisas eram na realidade e sentir orgulho deles. Além disso, consegue retirar deles informações bastante transparentes e quase didáticas de como pode funcionar um regime totalitário. Propagandas extremamente sensacionalistas, que mostravam os “comunistas” como pessoas horrorosas, eram exibidos para toda a população; os meios de comunicação contribuíam com o governo, milhares de pessoas eram torturadas e mortas pelos motivos mais banais, o medo se instaurava e os militares prevaleciam.

É extremamente chocante como descrevem tudo o que fizeram com extrema naturalidade, chegando inclusive a mostrar cenas reais de extorsão de comerciantes. Em um dado momento do filme, pouco antes de começarem a filmar com a ajuda de alguns membros da Juventude Pancasila uma reconstituição de um ataque a um vilarejo, um dos oficiais conta, quase como zombaria, como abusava as garotas de 14 que apareciam na sua frente durante a operação: “isso vai ser o inferno para você, mas vai ser bem próximo do paraíso para mim”. A experiência foi tão forte que, depois da reconstituição, muitas das mulheres e meninas que serviram como atrizes choram incessantemente, inclusive a filha de um dos capangas.

Após a filmagem, Anwar assistia as reconstituições em sua casa. Embora na maior parte do tempo ele mostre aparente indiferença às brutalidades, mesmo muitas vezes interpretando o papel de torturado, em um dado momento parece que o diretor consegue alcançar seu objetivo de fazer com que Anwar questione seus atos.

O documentário como um todo serve para dar essa visão geral de como as coisas funcionaram e funcionam em regimes totalitários, além de permitir uma reflexão duríssima a cada ser humano que o assiste. Anwar acaba sendo o bode expiatório do diretor, carregando sozinho a culpa de atrocidades também cometidas por outras centenas ou milhares de pessoas. Que estes, assim como ele, possam assistir o documentário e refletir.

Assista ao trailer de O Ato de Matar

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