Prepare-se para uma sessão de tortura na sala de cinema. Não há conforto, a violência, um elemento cada vez mais comum em diversas produções, incomoda em Heli, filme polêmico do mexicano Amat Escalante, que rendeu o prêmio de melhor diretor no último Festival de Cannes. A produção consegue chocar o espectador ao mostrar integrantes de milícias mexicanas que não economizam na crueldade por informações. Percebemos logo no inicio que Heli não é para estômagos fracos. Em uma cena que parece despretensiosa, dois homens aparecem imobilizados na caçamba de um carro. A condição de submissão desses personagens é o que o filme construirá ao longo dos seus 105 minutos.

Heli mora com o pai, esposa, filho e irmã. A última tem papel central na condução dos acontecimentos ao se envolver com um recruta mais velho. A paixão que causa estranheza pela diferença de idade acaba por destruir a tranquilidade da família. Conhecemos também uma cidade mexicana pobre, dominada por policiais corruptos, treinados sob o esgotamento físico e a humilhação. Nesse contexto temos um filme duro e mergulhado em instabilidade. Heli, ponto de equilíbrio da família, trabalha na indústria automobilística, peça de uma engrenagem onde não há sonho americano ou perspectiva de mudança.

Mas o que parecia um cotidiano sofrível piora a medida que as relações se estreitam. O cartel mostra a força, e infiltra-se na vida de Heli e sua família.  Torturado e humilhado ele consegue voltar, mas sua vida não é mais a mesma. A lembrança do passado recente e a relação com a polícia desestabiliza sua rotina, porém a dor frente as perdas não estimula inicialmente um desejo por vingança. Heli, percebe sua pequenez frente ao fato e esconde da polícia os principais detalhes ligados ao acontecimento. A crítica realizada pelo filme é dura à policia, fraca frente à corrupção dominante.

Apesar dos constantes incômodos, Heli se mostra uma obra de concepção confusa alternando-se no protagonismo dos personagens que não se desenvolvem durante a trama. Um bom exemplo é o da irmã de Heli que some em dado momento do filme. Essa condição faz o espectador prever vários finais para a produção que perde ritmo final e se estende a um ponto inimaginável. Existem várias opções de corte e a nossa escolha talvez não seja igual à do diretor. Destaque para a fotografia que, apesar de cruel em certas cenas, demonstra a habilidade do diretor de construir cenários e personagens com uma tênue proximidade entre o real e o poético.

Ao final temos a sensação de um filme incompleto, falta algo aos personagens e à trama difícil de ser explicado, talvez seja a mesma condição que provoca uma combinação de vazio e revolta ao ver o filme. A injustiça parece completar a vida desses personagens, torturados por um sistema onde o ser humano tem cada vez menos valor.

Assista ao Trailer de Heli

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